Você está assistindo a um blockbuster e de repente é surpreendido por uma fala profunda, de ressonância metafísica. (A pipoca parada na garganta — a condição humana revelada na sala escura). Isso já me aconteceu, por exemplo, assistindo a uma das sequências dos Piratas do Caribe. Quando vi Tróia, fique ressabiado com a seguinte fala do sábio Brad Pitt:
“– Os Deuses nos invejam. Eles nos invejam porque nós somos mortais, porque cada momento nosso pode ser o último. Tudo tem mais beleza por estarmos condenados. Você nunca será mais bela do que é agora. Nós nunca estaremos aqui de novo.”
Relendo o conto O Imortal, de Borges, descobri a razão:
“A morte (ou sua alusão) torna preciosos e patéticos os homens. Estes comovem por sua condição de fantasmas; cada ato que executam pode ser o último; não há rosto que não esteja por dissolver-se como o rosto de um sonho. Tudo, entre os mortais, tem o valor do irrecuperável e do inditoso. Entre os Imortais, ao contrário, cada ato (e cada pensamento) é o eco de outro que no passado o antecederam…”
[trad. Flávio Cardozo]
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Borges, vc sabe, é um grande plagiador.
A sorte que ele teve, nesse conto, é que Homero já morreu há muito tempo. Aliás, a sorte maior é que Homero nem existiu.