28 Junho, 2009...5:00 pm

Desbaratando a rede de procrastinação

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É uma palavra que conheci tardiamente. Até esse ponto, protelar, adiar, enrolar não pareciam ter qualquer força, mas procrastinar ressoou como uma descoberta-chave. Pior do que voltar do médico sem uma cura bem definida é nem ter ao menos o diagnóstico. Antes de tudo, precisa-se de uma palavra definidora. Sempre que é citada, procrastinação ilumina os que compulsivamente atrasam as suas tarefas. Tarefas às vezes definidas por eles mesmos.

O Houaiss indica a origem do latim, procrastinatìo, que tem significado direto: deixar para o dia seguinte. Essa filiação nos dá um sentido histórico e também sugere uma fase que pode ser denominada de procrastinação clássica. Construir um império e erguer aquedutos e abrir todas as estradas que levam a Roma, tudo isso cansa em certo momento. Podemos imaginar procrastinadores em túnicas, sentados nas escadarias de mármore. E que seja lançada aqui uma hipótese historiográfica: a Pax Romana não foi nada além de uma longa e continental procrastinação.

Para entender a sua natureza, deve-se dizer que o procrastinador é arrogante o suficiente para desafiar o deus Cronos. O reles mortal tenta moldar prazos, criar um longo período de tempo livre e um outro, final e curtíssimo, em que qualquer tarefa é cumprida por milagre. Contudo, Baudelaire acertou ao escrever que o tempo é o jogador que, sem trapacear, ganha sempre. O tempo é a banca do cassino. Na mentalidade do procrastinador sempre “é preciso esperar mais pouco”, como se uma revelação genial estivesse para chegar e fosse virar a mesa. Não virá, ou sendo mais preciso, idéias melhores podem vir, mas elas não redimir os minutos mal gastos. Implementar melhores idéias também demora.

O pior lado da procrastinação é que as horas não-produtivas são manchadas pela culpa e ansiedade. Não é um período em que se pode relaxar ou se divertir de fato, afinal um jogo impossível de ser ganho está correndo. Mas é necessário olhar de frente para esses subterrâneos, para esses labirintos onde nada é feito, pois entendendo a procrastinação, pode-se imaginar a vida sem ela. Algum dia, caminhar ao sol com o passo tranquilo de quem fez as suas tarefas com folga. Mais confiante, mais sexy, ouvir um “deixa eu lhe dar um abraço gostoso, seu cumpridor de prazos”. Não vendo mais nada de mortal nos deadlines, o ex-procrastinador lembra-se do crepúsculo romano.

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