- Da peça Helena, de Eurípedes:
“O que dizes? Que sofremos em vão, por uma nuvem?”
[A partir da tradução para o inglês de E. P. Coleridge]
Eurípedes dramatizou uma variante curiosa: devido a uma maquinação de Hera, uma má perdedora, Helena teria sido enviada para o Egito. Quem trai o marido e escapa para Tróia seria um simulacro de Helena, um fantasma que desaparece no ar assim que os gregos vencem a guerra. Mais adiante na peça, é dito: “Oh, Príamo e Reino de Tróia, por nada vocês foram destruídos!”
É uma boa questão, que devemos nos fazer a cada fim de tarde.
- De O Mercador de Veneza, de Shakespeare:
“Se nos espetam, não sangramos? Se nos fazem cócegas, não rimos? Se nos envenenam, não morremos?”
[Tradução apoética]
Pela caracterização do mercador judeu Shylock, muitos já consideraram esta peça preconceituosa, mas o destaque do texto é um belo discurso desse mesmo personagem – acima está só uma parte – sobre como as pessoas se assemelham, seja pela fragilidade ou impulso de vingança. (Aliás, Shakespeare é obviamente o mestre-supremo das indagações.)
- De Álvaro de Campos:
“Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?”
Ótima pergunta, meu caro. E não é prato que se come frio, mas lho trouxeram frio. Não faço idéia da resposta. Talvez essa coisa de heterônimos para cá e para lá, não sei, algumas mulheres podem achar isso estranho.
- Da novela A Metamorfose, de Kafka:
“Por que Gregor estava condenado a servir numa firma em que à mínima omissão se levantava logo a máxima suspeita?”
[Trad. Modesto Carone]
Desde a primeira frase do texto, sabemos que Gregor acordou e se viu transformado em um monstruoso inseto. A preocupação inicial dele, de qualquer forma, é com o atraso no serviço. A questão citada é um exemplo do pouco apreciado humor do autor tcheco, sendo que a resposta poderia ser que Gregor trabalha justamente ali por ser um personagem de Kafka.
- De Manuel Bandeira:
“- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?”
Já conhecemos de cor a resposta, mas ao reler o poema, ressurge o suspense, um traço de esperança. Confiamos na evolução do equipamento médico, na manufatura de pílulas com psicoativos. Qualquer coisa que nos desvie do tango argentino.
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EURÍPEDES: Prefiro as peças de Sófocles. Mesmo porque nunca li outras peças do teatro grego -ou assisti à encenação… A propósito, de que se trata, enfim, “Helena”?
ÁLVARO DE CAMPOS: Mas, Marco, se ele pediu uma dobrada à moda do Porto, por que você lhe trouxe uma mulher?
KAFKA: É verdade! Já havíamos comentado sobre isso num outro post seu. É uma forma cínica de aludir ao “mundo-máquina”; mas nem por isso menos séria, como se fosse meramente um revide do autor. Na verdade, as críticas de Kafka ao mundo moderno são o que há de mais contundente em sua obra, ecoando em cada linha, em cada ano e em cada década. Uma história bem forte do autor e, curiosamente, pouco referida, é “Um Artista da Fome”, que pode ser lida de muitas formas, a contar pelo título.
a- Essa peça trata de Helena no Egito, ao fim da guerra. Melenau e um grupo de gregos passam pelo país e sabem da verdade… grande drama.
b – Ele pediu amor e serviram dobrada fria, e não é prato que se come frio.
c – Não só Samsa também se sente vítima da burocracia, mas ele tem que estar na empresa mais sensível a uma omissão entre todas as outras… bem Kafka…
belo post :)
Belos autores, Olivia, mas obrigado, abraços!
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Eu acho que o lance do amor x prato frio tem a ver com alguma vingança amorosa. Afinal, a vingança é um prato que se come frio… ou algum heterônimo pegou a mulher e mandou a comida…
(pra não ter duplo sentido: esse ‘a’ é um artigo, não um pronome… he he he).