Paulo Henriques Britto é tradutor e poeta premiado, responsável por elogiadas versões para o português de romances de William Faulkner a Thomas Pynchon, entre outros. Também é professor de Estudos da Tradução da PUC-Rio. Ele teve a gentileza de responder a essas perguntas por e-mail.
1. O crítico James Wood não é um apreciador de John Updike. Em uma resenha sobre Coelho se cala e outras histórias, ele reclama da fé excessiva de Updike nas palavras. Ainda segundo o crítico, Updike acredita que “o mundo sempre pode ser removido da sua nebulosidade e iluminado de forma justa”. Claro que, por outro ângulo, essas características podem ser tomadas como qualidades. Você trabalhou com a tetralogia do Coelho e outros livros de Updike. Gostaria de saber como é a experiência de traduzir alguém que possui uma crença forte não só na linguagem em geral, mas sobretudo em sua precisão.
A principal crítica de Wood é que Updike escreve demais — livros bons em meio a muitos fracos e repetitivos. A crítica não é de todo injusta; de fato, Updike publicou mais do que devia. Mas mesmo nos livros mais fracos ele mantém um padrão mínimo de competência, e ainda que possa ser acusado de redundância e repetitividade, jamais é impreciso ou confuso. Para o tradutor, a repetitividade acaba facilitando um pouco o trabalho: depois de traduzir três ou quatro livros de um autor que trabalha com um repertório restrito de temas e estilemas, as dificuldades diminuem. Por outro lado, no caso de Updike, a precisão e competência formal — que, nos seus melhores momentos, chega a virtuosismo — não deixam nunca que a tarefa fique fácil demais.
2. Em diversos momentos de Ruído branco, Don DeLillo usa aquelas frases carregadas de adjetivos em sequência ou com excesso de orações subordinadas – recursos coerentes com a temática do livro. Ao verter um trabalho desse tipo para a nossa língua, todo tradutor se vê obrigado a simplificar o texto de alguma forma, especialmente se tiver o ritmo de leitura como preocupação. Pode-se apontar aí uma diferença estrutural entre o português e inglês, contudo, vale lembrar que a língua inglesa nem sempre foi usada dessa forma. Você acredita que em algum momento o leitor de língua portuguesa poderá aceitar esse tipo de composição mais carregada, de um lado, mas também mais flexível, por outro?
O tradutor é obrigado a caminhar numa fronteira perigosa. Por um lado, ele tem de respeitar as idiossincrasias do autor com que trabalha, as quais necessariamente têm a ver com as características do idioma em que ele escreve. Por outro, tem de também levar em conta o fato de que o idioma para o qual está traduzindo não tem as mesmas características do idioma fonte, e por isso algumas coisas terão de ser modificadas. Efeitos que são naturais em inglês ficam forçados em português; estruturas sintáticas que conotam agilidade e fluência no original ficariam pesadas, ou mesmo ininteligíveis, em português. É claro que, por efeito de muitas traduções do inglês — inclusive algumas em que o tradutor, mais por preguiça do que por respeito ao idioma original, acaba trazendo para sua tradução características do inglês que a princípio soariam estranhas em português — nosso idioma acaba se alterando um pouco. Mas é claro que o inglês moderno difere do inglês medieval principalmente por efeito das influências do francês; e o francês nada mais é que o latim falado na Gália influenciado pelos falares célticos que lá havia antes da chegada dos romanos, e assim por diante. É assim que as línguas se modificam com o passar dos séculos.
3. De Philip Roth, você traduziu obras do início da carreira (Adeus, Columbus, 1959; Complexo de Portnoy, 1969) e também da fase mais recente (A marca humana, 2000; Fantasma sai de cena, 2007, por exemplo). Roth é conhecido como um escritor que revisita alguns temas obsessivamente. Você identifica mudanças significativas na prosa e na abordagem de Roth?
Na temática, a mudança é evidente: Goodbye, Columbus é um livro escrito por um autor jovem sobre as dificuldades de um jovem que dá início a sua existência adulta; Exit ghost é um livro sobre a velhice e a consciência de que uma doença terminal e a morte estão próximas. Na abordagem, o humor de Roth, que sempre foi cáustico, está ainda mais negro, mais mordaz.
4. Em O arco-íris da gravidade, Thomas Pynchon não se referencia à língua inglesa do séc. XVIII como faz em Mason & Dixon. Também não se vê ali uma abordagem radical como a de James Joyce. Porém, bastam as primeiras linhas de O arco-íris da gravidade para notar que há algo de muito especial na linguagem desse romance. Você trouxe essas duas obras citadas ao português; nesse processo, foi possível formar alguma opinião sobre o que faz a prosa de Thomas Pynchon ser tão peculiar?
Pynchon é um dos mestres da prosa inglesa da segunda metade do século XX. A meu ver, sua principal contribuição à ficção de nosso tempo foi a incorporação e recriação poética da linguagem degradada da televisão, dos desenhos animados, das revistas em quadrinhos, dos chavões, do kitsch que nos cerca por todos os lados. Pynchon não tem medo do mau gosto, do excesso, da bobeira, da vulgaridade, que em sua ficção coexistem com erudição e sutileza.
5. Para terminar: que prosadores de língua inglesa você sente falta de ver traduzidos no Brasil?
Vou citar só um: Henry Green. Gostaria muitíssimo de traduzir Party going [1939], um romance maravilhoso.




7 Comentários
8 Maio, 2009 às 3:45 pm
Maravilha de entrevista!
8 Maio, 2009 às 3:52 pm
[...] Faltou apenas dizer quando sai “Against the Day”. A entrevista completa pode ser lida aqui. Escrito por Leandro Oliveira em 08/05/09 | SHARETHIS.addEntry({ title: “Pynchon, por seu [...]
8 Maio, 2009 às 4:05 pm
Obrigado, Leandro, o PHB foi generoso ao responder. Abs.
8 Maio, 2009 às 9:32 pm
Obrigado por compartilhar essa bela entrevista.
8 Maio, 2009 às 11:55 pm
Nicely done, Polli!
9 Maio, 2009 às 12:31 am
Bons tradutores são invariavelmente bons leitores, sempre é bom ouvi-los. Abraços Júlio e Tiago.
19 Maio, 2009 às 7:13 pm
[...] Leiam a breve (e interessante) entrevista com o poeta e tradutor Paulo Henriques Britto no blog ângulo. As perguntas são sobre o trabalho dele com prosadores contemporâneos de língua [...]