22 Janeiro, 2009...9:58 pm

Kafka em miniatura

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Esse texto de Franz Kafka poderia ter o subtítulo de História de ninar para futuros insones:
[Trad. Modesto Carone]

Pequena Fábula

“Ah”, disse o rato,“o mundo torna-se a cada dia mais estreito. A princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma para a outra, que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira para a qual eu corro.” ― “Você só precisa mudar de direção”, disse o gato e devorou-o.

——

Nesse texto curtíssimo, podem ser vistas marcas das histórias mais longas de Kafka:

1 – Contingência. O destino do rato é determinado por forças que ele não controla ou entende. Não temos qualquer idéia do motivo para que as “longas paredes” convirjam. É uma situação equivalente à encontrada em A Metamorfose, O Processo e O Castelo. Porém…

2 – Ligação ou culpa insinuada. Porém, há elementos do texto que emprestam um ar nebuloso a essa contingência. O rato diz que estava feliz com o fato de ver finalmente as paredes, e que antes o mundo “era tão vasto que me dava medo”. Esse é um dos traços mais cruéis nos textos de Kafka: embora sejam vítimas de circunstâncias incompreensíveis, parece haver algo de errado com Gregor Samsa, Joseph K., e o Agrimensor. Cada mínima atitude desses protagonistas ainda é julgada – pelos outros e por eles mesmos – apesar de que cada um já pareça condenado desde o ponto de partida.

3 – A grande verdade sem uso. Borges identificava entre os temas centrais do autor tcheco a “infinita postergação”, exemplos: a mensagem do imperador que nunca chega, o processo que jamais é esclarecido ou julgado, a muralha cuja construção exaure o país mas que nunca é finalizada. Porém, Pequena Fábula está numa classe diferente – como Diante de Lei e O Veredicto – por ter um desfecho definido. O rato é informado de uma verdade fundamental no momento exato em que ela se torna inútil. “Você só precisa mudar de direção”.

Uma pesquisa no Google revela 125.000 resultados para “kafkiano” (18.100 para “quixotesco”). Geralmente, o termo é usado como sinônimo para absurdo, mas Kafka baseia-se em algo ainda mais perverso do que apenas a falta de sentido. Pela fala do gato, o rato tinha sim opção, e era uma opção fácil. Não são poucos aqueles que vêem um humor latente nos escritos kafkianos. Sem dúvida, está lá ao menos o humor dos paradoxos.

6 Comentários

  • Boa análise, Marco. Há um episódio, narrado pelo padre a K. em “O Processo”, que também expressa um pouco desse humor cruel de Kafka. Fica claro que se trata de uma alegoria da relação do autor tcheco com seu pai. Mas não se restringe a isso, naturalmente.

  • Oi, David, essa história que o padre conta foi aproveitada pelo Kafka como um conto curto no volume Um Médico Rural, chamando-o de “Diante da Lei”. Tem semelhança sim com “Pequena Fábula”, no final se tem aquele: ” — Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora vou embora e fecho-a”.

  • Marco Polli, a tua leitura sobre kafka me fez lembrar de uma HQ biográfica desenhada por Robert Crumb. Nela, o significado (errôneo, ou talvez apenas incompleto)do termo kafkiano também é debatido.

  • D’Souza, Thanks for recommending a comic book I’ll never read.

  • Outra narrativa dele que entra na classe de “grande verdade sem uso” é “O Veredicto”:

    “– Agora portanto você sabe o que existia além de você, até aqui sabia apenas de si mesmo! Na verdade você era apenas uma criança inocente, mas mais verdadeiramente ainda você era uma pessoa diabólica. Por isso saiba agora: eu o condeno à morte por afogamento!”
    [Trad. Modesto Carone]

  • [...] bom o curso. Estou aprendendo muito mesmo! Ter uma primeira aula de literatura (em alemao) sobre Kafka é algo inesquecível. Adorei a aula, [...]


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