
[faces coladas têm mais apelo do que opostas]
É fácil entender por que Sam Mendes, diretor de Beleza Americana, interessou-se por adaptar o romance Revolutionary Road. A perspicácia com que o autor deste, Richard Yates, aborda a classe média americana faz aquele filme parecer uma caricatura pouco inspirada. (Pois há caricaturas bem inspiradas). Os subúrbios dos Estados Unidos, com suas grandes casas e grandes angústias, tornaram-se com certeza um tema desgastado, não só pela literatura, mas também pelas séries de TV. Vale notar, porém, que quando Yates publicou o seu livro (1961) esse era um assunto propriamente novo. A força da economia americana no pós-guerra acabara de criar essa classe média numerosa, consumidora, que se mudava para fora dos centros urbanos. Seguindo a John Cheever e John Updike, Yates é considerado com um dos escritores que trataram melhor as ansiedades originadas nessa época. (Veja o artigo de Stewart O’Nan)
Os primeiros capítulos de Revolutionary Road são exemplares em combinar descrição factual e significação dramática. O ano é 1955, narra-se uma apresentação teatral, cujo elenco é formado por amadores de uma mesma região de Connecticut, incluindo Revolutionary Road. A atriz principal, April Wheeler, havia deixado a carreira dramática para se casar e, por isso, dela é esperado o melhor desempenho. Tanto o grupo quanto a platéia levam a apresentação bastante a sério, mas a performance no palco logo se deteriora, lembrando a todos que ali estão apenas amadores, querendo, com ingenuidade, ser o que não são. Ao buscar a sua esposa nos bastidores, Frank Wheeler chega a dizer: “Acho que não foi exatamente um triunfo ou coisa do tipo”. Voltando de carro para casa, uma briga irrompe com o casal, trazendo tensões prévias e sobretudo mal-definidas. Mas o melhor da trama é que ela não se encaminha apenas sobre as insatisfações do casamento, mas para algo mais amplo e interessante: Richard Yates percebe bem o nascimento de uma classe média que tem desprezo pela… classe média. O pior pesadelo de todos é “ser como todos os outros”, e assim que finalmente podem pagá-la, consideram que têm uma vida artificial, protegida e sentimentaloide em subúrbios assépticos.
Mais tarde, a fraca apresentação teatral é retomada por April Wheeler como uma metáfora para o seu modo de vida. De fato, ela é a personagem que move o romance, e é descrita como parecendo sempre estar pronta para ir embora:
“But even in those days she’d held herself poised for immediate flight; she had always been ready to take off the minute she happened to feel like it (‘Don’t talk to me that way, Frank, or I’m leaving. I mean it’) or the minute anything went wrong.”
O vulto da mobilidade constante estava se colocando até para as mães casadas de classe média. E não será aqui pelo divórcio: a saída que April concebe para si própria, Frank e suas duas crianças é mudarem para Paris. O romance deliciosamente explora a repercussão do anúncio dessa mudança entre os vizinhos e colegas de trabalho. Em termos de estilo, Richard Yates pode ser considerado como um dos herdeiros de F. Scott Fitzgerald . É uma prosa estilizada, bem acabada, que procura construir o mundo interior dos personagens sem verborragia, combinando essa interioridade com a descrição do ambiente e com metáforas precisas. Porém, há em Yates mais dinamismo e uma liberdade maior na troca do ponto de vista narrativo entre os personagens. Como acontece também com Fitzgerald, a elegância e inteligência do texto acabam deixando o leitor desarmado para quando, mais ao final da história, os personagens descem a um drama mais pesado.
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Eu assisti a Revolutionary Road (Foi Apenas Um Sonho, no Brasil) logo após ler o livro e tive um certo choque. O roteiro buscou ser fiel ao romance de modo obsessivo e não há qualquer mudança minimamente importante na trama. Os diálogos são tirados diretamente do texto. Porém, a história contada visualmente se mostra apenas como um melodrama – sem dúvida mais rico do que a média, mas sem algo excitante para diferenciá-lo. A linguagem de Yates garante a elevação do material, enquanto que Sam Mendes, mesmo sendo competente e seguro na direção, não consegue maravilhar esteticamente.
Juntos com alguns filmes de grande apelo, são lançados os “ties-ins”: brinquedos, peças de vestuário, revistas em quadrinhos. Para mim, Foi Apenas Um Sonho é que serve de tie-in do livro, uma exploração visual feita com profissionalismo, mas desnecessária tal como um brinde. Um brinde de 35 milhões de dólares e com dois astros do cinema.
(Um amigo disse que um conhecido disse que a tradução de Revolutionary Road sairá logo no mercado brasileiro). O livro já saiu e dá para ler o primeiro capítulo na Livraria Cultura.



1 Comentário
13 Janeiro, 2009 às 11:53 am
[...] para adicioná-lo a lista de futuros livros – e inaugurar mais uma seção de posts, claro. Citando-o: Mas o melhor da trama é que ela não se encaminha apenas sobre as insatisfações do casamento, [...]