As retrospectivas em dezembro servem para mostrar que basicamente já esquecemos o ano todo. Fatos do primeiro semestre – como a saída de Fidel e o caso Isabella – agora parecem ser de um passado distante, arqueológico. Em perspectiva, as Olimpíadas de Pequim ocorreram na mesma época que as de Atenas. E é claro que, com a ação militar corrente na Faixa de Gaza, o conflito Geórgia/Rússia de agosto foi jogado no mesmo slot mental da invasão da Normandia, ou, mais propriamente, de O Resgate do Soldado Ryan.
Ficaríamos constipados com madeleines tentando lembrar de 2008 por nós mesmos. E se a nossa mente mal consegue arranjar os últimos doze meses, quanto mais o restante da história. Sabemos basicamente quatro coisas: 1) houve um Big Bang (ou algo assim estranho, como uma intervenção divina) – 2) Pedro Cabral demorou, mas chegou ao Brasil – 3) os Nazistas foram muito maus – 4) temos esse bloco de Obama/Crise Financeira/Faixa de Gaza. Pronto, não dá para colocar muito mais – arranjamos o épico da raça humana como um samba-enredo.
Mas se a história da humanidade é comprimida para trás, o ano novo é um campo largo para todas as possibilidades. Com folga, podemos encaixar de tudo em 2009, a nova dieta e outras autopromessas: quatro viagens, posições novas tiradas do Kama Sutra, um salário maior, um acorde mais difícil no violão, visitas mais freqüentes aos pais, duas descobertas sobre a natureza humana, e até um acordo de paz duradouro entre israelenses e palestinos. Precisamos condensar e apagar o passado para que não haja limites ao imaginarmos o futuro. Claro que existem as pessoas que não acreditam mais no potencial do ano novo – elas até pensam no sinal de trema que vai desaparecer pelo acordo ortográfico (“tema pelo trema“) – mas brindam e comemoram tranqüilamente com os outros, não querem estragar a festa.
——
Jornais e revistas apresentam a sua retrospectiva sobre política, celebridades, desastres naturais, e separada de tudo é que está a lista de melhores livros do ano. Fazem questão de deixar muito claro: a primeira tradução direta do russo de Os Irmãos Karamazov pode ser relevante para o Brasil, mas não se compara ao Presidente da República ter dito “sifu”. E se Philip Roth recebeu muitos elogios por Indignation, esse é um fato pequenino frente ao divórcio de Madonna e Guy Ritchie.
Quem sabe isso algum dia mude. Um dia talvez saibamos que Lula telefonou a Junot Diaz para congratulá-lo por The Brief Wondrous Life of Oscar Wao. Ou que o Itamaraty veio a condenar o tamanho desproporcional de 2666, de Roberto Bolaño. Porém, na situação presente, os livros fazem parte apenas das retrospectivas particulares: Os melhores trechos de livros lembrados ao lado das melhores piadas que ouvimos no ano, do melhor elogio, dos melhores olhares que recebemos, enfim. Para alguns de nós, as leituras feitas estão entre os acontecimentos mais importantes de 2008. E não porque a literatura, como sugerem as campanhas de governo, cria um mundo paralelo de fantasias, mas justamente porque ela ilumina e se mistura a todo o resto. E 2009 parece ter um potencial ainda maior quando se pensa nas futuras leituras.
——
Aqui vai a minha lista de leituras marcantes de 2008:
FICÇÃO
Obsessão precisa: A Defesa Lujin, Vladimir Nabokov (post)
Nós e eles – a velha rebeldia juvenil: Rebeldes, Sándor Márai (resenha)
A fantasmagoria da literatura: Paris Não Tem Fim, Enrique Vila-Matas (resenha)
Vai escrever bem assim lá na &¨*¨%: 47 Contos, Juan Carlos Onetti.
O eloqüente flaneur catalão: Diario de un Hombre Humillado, de Félix de Azúa (post)
A Europa como o fantasma que ronda a Europa: Os Anéis de Saturno, W. G. Sebald (resenha)
Prestes a atravessar a linha de Conrad: O Fantasma Sai de Cena, Philip Roth
Uma parte da história da ironia – de 1929: Is Sex Necessary?: Or Why You Feel the Way You Do, James Thurber, E. B. White
Realismo histérico com coração: The Brief Wondrous Life of Oscar Wao, Junot Diaz
Salvando o período de exceção das narrativas pobres: História do Pranto, Alan Pauls (resenha)
Vai escrever bem assim lá na &¨*¨% [2]: Revolutionary Road, Richard Yates
NÃO- FICÇÃO
500 páginas de texto normal, 150 de notas sobre as fontes – crítica forte, mas com base: Legacy of Ashes: The History of the CIA, Tim Weiner
O inferno são os intelectuais franceses: Passado Imperfeito – um Olhar Crítico Sobre a Intelectualidade Francesa no Pós-guerra, Tony Judt
O senhor século XX: American Prometheus: The Triumph and Tragedy of J. Robert Oppenheimer, Kai Bird, Martin J. Sherwin
——
Para quem leu o post e ainda chegou ao fim, um ótimo 2009. Já quanto aos outros, não temos que obrigatoriamente atrapalhar a vida deles, tenhamos calma. Abraço.



4 Comentários
4 Janeiro, 2009 às 9:28 am
Revolutionary Road não é do Richard Yates?
4 Janeiro, 2009 às 1:54 pm
Raul, eu ia corrigir lá e dizer que você tinha visto coisas. Como faço muito, na pressa, troquei as bolas. Valeu pelo toque. Este mês vou ver se consigo escrever algo sobre o livro.
6 Janeiro, 2009 às 11:53 pm
Vai escrever bem assim lá na &¨*¨% [2]: Revolutionary Road, Richard Yates (II)
7 Janeiro, 2009 às 12:43 pm
O sujeito é muito bom, mas quem acha que está escrevendo razoavelmente bem, Yates é um lembrete para baixar a bola. Aquele primeiro capítulo deveria entrar em qualquer curso de escrita, oficinas, etc.