“Diario de un Hombre Humillado”, de Félix de Azúa

“Confesso ter me entregado à banalidade escapando da poesia. Antes de trabalhar impetuosamente para a conquista da banalidade, eu escrevia poemas. A verdade é que todos escrevíamos poemas; eu escrevia poemas até a aurora. Nas pontas dos pés, ajoelhados, em decúbito frontal, agachados, premindo os lábios, escrevíamos poemas. Às estrelas, à lua, ao rio Ebro? Absolutamente, isso resvalava para o gratuito. À Luísa, Maria, Rosa, ou Lisa? Nem pensar, o poema de amor era considerado franquista. À queda do Império Romano, a uma urna ibérica, a um operário de folga? Isso era o mais desprezado. Não: o espantoso, o fenomenal, é que escrevíamos que estávamos escrevendo que escrevíamos. Como disse um célebre crítico francês, mantínhamos o motor da linguagem ao ‘ralenti’. Le moteur, la langue, la parole, el sursum corda!
Aquilo foi uma revolução, porém apenas uma entre várias. Por um processo muito bem estudado a que se costumava chamar de ‘o Terror’, chegamos a saborear a sedução do pensamento chinês. Um açougueiro de Xangai garantia degolar cabras com maior eficiência após ler o Livro Vermelho do Camarada Mao. E nós compúnhamos sinfonias celestiais inspirados pelo mesmo Farol. Também nos drogamos com o cruel descontrole com que uma costureira reza seus rosários. Em poucos anos, a imbecilidade ativa havia se transformado em estupidez atônita.
As atividades conhecidas como ‘individuais’ ― o suicídio, a conspiração, o vício, a literatura ― haviam sido massificadas. A individualidade morrera nos braços do individualismo.”
Félix de Azúa é espanhol e é um dos muitos escritores citados por Vila-Matas em Bartleby e Companhia. Esse Diario de un Hombre Humillado, publicado primeiramente em 1987, possui até uma tradução para o inglês, mas ainda não foi editado no Brasil. O ponto de partida do livro não é nada original: escrevendo em primeira pessoa, temos um protagonista desocupado que observa a cidade e dispara comentários ácidos sobre os outros e sobre si mesmo. Porém, a qualidade verbal e irônica de Azúa faz mais do que render o mote. Para essa obra é merecida a categoria de “literatura urbana”: Barcelona é narrada com vivacidade e agudez, e um achado descritivo é exposto com tanta energia como são contadas as aventuras sexuais. Altamente recomendável.