Literatura e Política


O romance Junta-Cadávares (1964) de Juan Carlos Onetti teve duas edições no Brasil e elas foram apresentadas de modo bem diferente. Na edição mais antiga, de 1968 pela Civilização Brasileira, lê-se na orelha assinada por Franklin de Oliveira:
“[Onetti] é um desses escritores: potente, enérgico, viril. A sua ficção é um desafio e um protesto. Uma tomada de consciência. Nada da novela cor de rosa ou do romance descompromissado do costumbrismo. Romance-participação, fincado na terra, na cidade, nos bairros pobres, na gente alienada — tanto se pode ser reduzido à alienação pela miséria como também pela riqueza. Nas sociedades desiguais é assim — nas duas pontas da ordem social, a dos espoliados e a dos privilegiados, baila a alienação.”
“Um livro que se incorpora à nossa literatura, enriquecendo a experiência humana de nossos leitores, nesta transfusão de sangue cultural hispano-americano que a CIVILIZAÇÃO vem operando, no Brasil, através de Nossa América, em cuja coleção passa a se integrar este poderoso, forte, urgente romance. Que pede também leitura urgente.”
Já a edição da Planeta, de 2005, tem uma sinopse com outro tom:
“A história discorre sobre o ex-presidiário Larsen — personagem que também faz parte de outras obras do escritor –, apelidado de “Junta-Cadáveres” por colecionar casos com prostitutas pobres e decadentes. Larsen chega a cidade fictícia Santa María com o sonho de montar o “prostíbulo perfeito”. É claro que esse é um projeto predestinado ao fracasso, mas Onetti quer apontar exatamente para o malogro que existe em todo empreendimento humano.”
O livro ainda incluiu um prefácio de Francisco J. C. Dantas, que comenta:
“Onetti sempre priorizou o indivíduo em si mesmo, com o seu punhado de propósitos ilusórios, de misérias interiores, ancestrais, mostradas a varejo, sem nenhuma conotação de condicionamento social.”
“Nenhum [dos seus personagens] lembra o ‘bom mocinho’, nem tampouco o revolucionário com idéias pragmáticas a defender. Não apelam para soluções mirabolantes, não carpem as injustiças sofridas, nem mandam em coisíssima nenhuma. A maior parte deles são anti-heróis quase sempre inúteis, freqüentadores das mesas imundas dos bares. Mais metafísicos do que práticos, entre um copo e um cigarro, desperdiçam o tempo a espiar o mundo e dialogar consigo mesmos numa lucidez dilacerada.”
São trinta e sete anos que separam as duas edições e os textos acima não divergem apenas pelas leituras do romance, mas por idéias distintas sobre o papel da ficção. A contracapa do exemplar da Civilização Brasileira diz que a coleção Nossa América “deseja quebrar as muralhas do isolamento cultural e promover a soma de esperanças e de rebeldias do povo da América Latina”. Subjacente está a idéia de que a arte e particularmente escrever e ler ficção deveriam convergir (rapidamente) para um ponto programático comum. E é essa idéia de centro, ou direção clara, que ruiu por completo. A razão disso é bem conhecida: a infame e sempre culpada “série de fatores”. Mas cabe aqui sublinhar um deles: o próprio conteúdo literário. Se importantes obras de ficção acabam por problematizar, ironizar e ver de forma inusitada todo e qualquer aspecto da existência humana, porque haveria de ser diferente com a política? Onetti era de fato de esquerda, chegou a ser confinado em um hospício pelos militares uruguaios e viveu no exílio a partir de 1975. Porém romances como Junta-Cadáveres, A Vida Breve e O Estaleiro, apesar de lidarem com personagens socialmente disfuncionais, nunca se alinham a uma direção política simples.
Não há motivo para que a política não seja tratada pela ficção –- um caso recente de um escritor consagrado abordando o assunto é Philip Roth com seu Exit Ghost (LO+). Contudo, ela não merece ter um status privilegiado e ser protegida dos meandros pouco piedosos da ficção de qualidade.