Imposto de Renda e a dedução da melancolia

– Em cidades pequenas, pagar o IR é um sinal de status. Comentam as contadoras em sluty style: “Nossa, ele ultrapassou o limite de isenção, muito charmoso, será que o casamento dele pode ser abalado?”. Porém, mais eficiente ainda é ser investigado por sonegação, o que empresta a aura dos marginais perigosos ou dos santos que foram entregues aos leões.
– É uma desonra a toda família Felidae que usem o leão como símbolo do IR. Uma injustiça à elegância felina. Para a troca, alguns contribuintes confusos com as regras sugerem a imagem da Esfinge. Eu penso que nenhum ser real ou já imaginado seja capaz de representar o poder invasivo e inescapável do IR. O leão mesmo pode ser extinto um dia, mas nunca o imposto. É necessário imaginar uma besta específica, nova, um pesadelo ciber-bio-tecnológico-magnético que, ao fim, só poderia se chamar IR. Uma realidade tão forte dispensa símbolos.
– Recolher o IR é confirmar a grande paranóia, validar a mais inverossímil das teorias de conspiração. Se você entrega 25% da sua renda ao governo, recolhe ainda alguns impostos na fonte, e usa o restante do dinheiro para comprar produtos e serviços que embutem impostos e taxas em cascata de até 50%, a verdade clara é que somos apenas servos humildes do Grande Sistema. Temos a ilusão de sermos espertos, às vezes criativos, de que nos divertimos vendo aquela série engraçadinha na TV, mas somos na verdade peças simples da Máquina.
– Há uma grande entrega de intimidade quando você declara as suas fontes de pagamento, as suas despesas médicas dedutíveis. Preenchendo os formulários do IR, é fácil se sentir como uma adolescente revelando tudo em seu diário, mas sem o recurso do código secreto. “Querido Leão, este ano ganhei menos do que no ano passado.”
– Se a entrega da declaração fosse em dezembro, ela serviria como uma retrospectiva pessoal do ano. Falta muito pouco para que os 12 meses estejam resumidos e avaliados ali por completo. Poderiam incluir as fontes de prazer e os lances de sorte, deduzir os dependentes emocionais e os dias ruins, que, óbvio, não podiam em render em nada mesmo. Se no balanço final, você ainda tiver imposto a recolher, aí sim justificaria declarar alto e com orgulho: “passei do limite mínimo, passei do limite mínimo!”.