Literatura de alcova

Uma passagem típica em um romance é quando o protagonista fica só em um quarto e o texto se torna mais subjetivo, misturando as impressões dos sons e da luz lá fora com o estado de espírito do personagem. Se houvesse exames para ser autor, descrever uma cena desse tipo seria um dos itens obrigatórios. Sobre o tema, um “livro-texto” seria Em Busca do Tempo Perdido, que desde o início inclui várias passagens assim, memoráveis. (Pode-se dizer até que Proust transplantou a “abordagem impressionista do quarto de dormir” para falar de sua vida toda). Outro livro a ser citado é A Vida Breve, de Juan Onetti. Um dos vários trechos:

“Tirei a roupa, e até o começo da noite fiquei passeando no quarto quente, convencendo-me de que escolhera aquele mês, aquela semana, aquele dia porque então o verão, negando-se a morrer, elevava consigo (…) homens e coisas; convencendo-me de que o calor podia ser sentido pelo olhar e que se partia em cores nas paredes e ao redor de meu corpo em movimento, dividia-se em franjas que se cruzavam sem misturar-se, de amarelos e ocres, de verdes escuros porém frescos, o verde do gramado na sombra da tarde.
Atrás da parede, o silêncio; o homem já tinha ido embora.”

[trad. de Josely Vianna Baptista, Planeta]

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