12 Fevereiro, 2008...1:17 am

Obsessivamente Nabokov

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“Mas não foi bem assim. Alguma coisa permaneceu ― um enigma, um estilhaço. Durante as noites ele se perguntava por que aquele encontro lhe causara tamanha ansiedade. Claro que havia uma série de elementos desagradáveis ― o fato de que Petrichtchev o atormentara na escola (…), além de que todo um mundo cheio de tentações exóticas comprovara ser pura invencionice de um fanfarrão, tornando impossível confiar futuramente nos folhetos de viagem. No entanto, não era o encontro em si que o havia assustado, e sim algo mais ― o significado secreto do encontro que lhe cabia decifrar. (…) Aos poucos começou a lhe parecer que a combinação era ainda mais complexa do que pensara de início, que o encontro com Petrichtchev era apenas a continuação de alguma coisa, e que era necessário olhar mais fundo, voltar atrás e refazer todas as jogadas de sua vida desde que ficara doente até o baile.”

[tradução de Jorio Dauster, Companhia das Letras]

Em Lolita (1955), temos o interesse fixo de Humbert Humbert por Dolores e pelo rival, Quilty, já Fogo Pálido (1962) vem do escrutínio sufocante de Charles Kinbote sobre o poeta John Shade. Assim, ao ler A Defesa Lujin (1929) é automático reconhecer Nabokov como um grande escritor da obsessão. Esse livro, reeditado há pouco no Brasil, começa de forma simples e mostra como o interesse de Lujin pelo xadrez foi se colocando acima de todos os outros, fazendo-o um jogador profissional. A partir desse ponto, a estrutura da obra fica mais complexa: a narrativa em terceira pessoa muda seu foco com constância e ocorrem mudanças abruptas no ritmo da história ― o paralelo desses elementos com o jogo de xadrez é explicitado pelo próprio Nabokov no prefácio.

Um ponto de vista curioso vem da sogra de Lujin: “A profissão de Lujin era trivial, absurda… A existência de tais profissões só era explicável por conta dessas malditas novidades, pela ânsia moderna de estabelecer recordes insensatos (….). Parecia-lhe que, no passado, na Rússia de sua mocidade, um homem que se ocupasse exclusivamente com o xadrez seria um fenômeno impensável.” E esse jogo abstrato não só trará fama a Lujin, mas vai dominar a sua percepção de mundo. Recorrendo muito pouco a termos técnicos, Nabokov constrói páginas fortes misturando xadrez, loucura e sonho. A peculiaridade da sua prosa fica em destaque: A Defesa Lujin poderia ser chamado de romance psicológico sem dúvida, porém a obra escapa das armadilhas comuns do gênero, como a verborragia e o empilhamento de impressões. Incontáveis autores já descreveram uma mente obsessiva, mas Nabokov possui uma consciência de estilo e rigor que garante prazeres únicos na leitura.


[O casal Nabokov na Suiça em 1966. Foto de Philippe Halsman]

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