3 Janeiro, 2008...5:41 pm

Crônica do leitor de O Arco-Íris da Gravidade

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Chego ao centro da cidade onde passeia a massa de não-leitores de O Arco-Íris da Gravidade. Não entendo por que na agência bancária tenho que pegar a mesma fila deles ― e estar sujeito às mesmas taxas de serviço é uma afronta pura. Alguém pode ver nisso um sentimento elitista, mas isso é apenas porque não leu ainda O Arco-Íris da Gravidade. Sim, estou avançado na leitura do clássico de Thomas Pynchon, mas não há um reconhecimento da sociedade por isso, a minha conta está incrivelmente pobre.

Ao sair do banco, encontro com uma velha conhecida, posso apenas convidá-la para um pastel de queijo com coca-cola. Mesmo assim, no balcão, em meio ao odor de gordura oxidada, eu a impressiono citando um trecho de O Arco-Íris da Gravidade na tradução de Paulo Henriques Britto:

“A noite é cheia de explosões e caminhões, e vento que lhes traz uns laivos de maresia do outro lado do planalto. O dia começa com um chá e um cigarro em torno de uma mesinha de perna bamba, que Roger consertou precariamente com barbante. Nunca se fala muito, são mais toques e olhares, sorrisos a dois, imprecações de despedida. É uma coisa marginal, famélica, fria ― na maioria das vezes a paranóia os impede de acender a lareira ― mas dela não querem abrir mão, tanto que para isso assumem mais do que lhes pede a propaganda oficial. Estão apaixonados. Foda-se a guerra.”

Indo para a minha casa passamos perto do Hospital Municipal, insinuo que lá são feitos experimentos pavlovianos. E na opinião dela, haverá chance de que o Paquistão lance bombas nucleares em nossa cidade? A moça não gosta da minha conversa, parte para assuntos desinteressantes como a viagem que fará no Carnaval ou o último porre de Amy Winehouse. Já estamos no portão de casa, mas eu preciso encarar a realidade: ela não leu O Arco-Íris da Gravidade. Não há nada o que possamos fazer de forma bem sucedida. Não era o meu desejo, mas entro sozinho, estarei só esta noite. Sem dúvidas quanto a isso, deveria haver uma casa de tolerância onde as prostitutas houvessem lido todo o Pynchon ― um lugar de encontro físico e literário. Apenas essas profissionais poderiam levar o sexo ao próximo nível.

Esparramo-me no sofá, o noticiário traz à tela diversas possibilidades para o mundo desandar de vez. Vou me desligando aos poucos, lento, dentro da minha cabeça há uma cidade sendo atacada, mísseis zunindo. Um grito atravessa o céu.

2 Comentários

  • Marco Polli,

    As várias formas da paixão. A paixão pelo livro ou por uma pessoa consegue fazer de nós gato-sapato. O resto que se exploda !!!

    Abraço.

  • Polli,
    dizem que há duas ou três casas de tolerância desse tipo no Japão. Quem sabe se na Liberdade…
    É ir lá (ou Lá) pra conferir.


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