8 Dezembro, 2007...3:58 pm

O voyeurismo lipócito

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(foto com Daniela Saraiba
- demonstração de correção, UOL Tecnologia)

Se alguém me perguntasse nos anos 80 se eu gostaria de ver uma foto que revelasse celulites de alguma das capas da Playboy, eu responderia obviamente “não”. Por isso, é estranho acompanhar os portais de notícias na rede e notar o atual voyeurismo lipócito. As celebridades já ganhavam mais cobertura do que tensões em países com armas nucleares, e agora, num passo além, perturbações epidêmicas são mais importantes do que perturbações na ordem mundial.

Alguns podem ver nesse interesse uma vingança justa sobre as celebridades: elas estabelecem padrões inalcançáveis de beleza, humilham o nosso cotidiano com seus convites VIP, suas contas não cobradas nos restaurantes, seus casos amorosos com pessoas bonitas, mas  agora nós damos o troco, comemoramos as suas celulites: “vocês também são humanos, ridiculamente humanos!”. Eu já não compartilho desse entusiasmo. Celebridades são pagas para iludir, dentro e fora de cena. Procurar defeitos no corpo delas é equivalente a ir ao teatro e, por exemplo, numa peça de Shakespeare, reclamar que aquilo não é um castelo mas um cenário, e achar irrealista que todos os personagens falem bonito. (Menos razoável do que buscar pêlo, é ficar procurando casca em ovo). Por fim, uma verdadeira vingança sobre as celebridades não se daria por flagras, mas justamente por não se gastar tempo pensando nelas, ou seja, são necessários flashs de esquecimento, amnésias escandalosas, fofocas sem pessoas — “Britney, quem?”. Essa é a vingança que eu gostaria de ter.

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