26 Novembro, 2007...3:23 pm

Era bonita, mas apoiava Hugo Chávez — conto

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Eu estava tentando escreve uma narrativa que misturasse Hugo Chávez e a tradição de misses venezuelanas, com aquela beleza artificial para palco. Acabei não conseguindo, mas saiu outra coisa, pensando em um tipo de beleza absoluta, indefinível, e lembrando-me também das conversas políticas de bar misturadas com flerte.

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Era bonita, mas apoiava Hugo Chávez

– A poluição visual em Caracas… Pensem na saturação… Hugo Chávez em murais, em cartazes espalhados obsessivamente pela cidade, nos televisores; você olha para o lado e está lá Hugo Chávez…

O meu comentário transformou o clima da mesa. Apenas duas pessoas riram, algumas ficaram quietas por não terem gostado, e outras ficaram quietas por saberem que algumas pessoas não iriam gostar. Essa seria apenas a primeira mudança na noite.

(A beleza dela está fora de disputa certamente, deve agradar pessoas ao longo do espectro ideológico. Eu a imaginaria em painéis gigantes, vendendo perfume ou conclamando as massas.)

Quem mais se incomodou foi Lúcia. Ela logo se virou para falar à amiga, disse algo perto do ouvido, sem tapar a boca, mas foi impossível de se compreender do outro lado da mesa. Percebia-me isolado, a única pessoa que eu já conhecia naquele grupo havia partido cedo; a minha decisão de ficar ali era tão somente pelo interesse em Lúcia. A nossa conversa parecia estar se encaminhando bem, eu e ela concordávamos completamente sobre a poluição visual de São Paulo e a regulamentação dos outdoors, mas naquele momento descobri que divergíamos sobre a capital da Venezuela.

(Como será Lúcia na cama, ela gosta de uma figura autoritária e forte, ou prefere um sexo sem traços de dominação?)

A conversa não se prolongou muito sobre política, mas se manteve nervosa. Músicas, seriados de TV e marcas de cerveja viravam cavalos de batalha, havia uma necessidade absoluta de vencer a discussão – embora fosse impossível estabelecer tal vitória, pois ninguém estava realmente disposto a mudar a sua opinião inicial. Eu ainda matutava sobre o que Lúcia teria dito à amiga; imaginava a revolução bolivariana acontecendo por aqui e as duas moças logo à frente prontas para me delatar. Eu perderia o emprego, relações de amizade e o livre trânsito nos bares. Lúcia estaria do outro lado da sala escurecida, ordenando em voz alta que eu repetisse as minhas palavras ofensivas sobre poluição visual em Caracas.

(Lúcia tem um olhar firme, pleno de certeza, que atrai justamente pelo desafio de alterá-lo, subjugá-lo. Uma imagem: do outro lado do quarto, Lúcia de lingerie preta. Ela sorri maliciosamente e diz que sou um traidor canalha.)

Lúcia e a sua amiga cujo nome eu não havia decorado. Eu já ouvira falar muito sobre os círculos bolivarianos no Brasil, baseados no dinheiro da Venezuela e na insatisfação local. Parecia coerente: Lúcia, a amiga, círculos bolivarianos.

Embora gastássemos muito tempo discutindo, o consumo de cerveja do grupo havia aumentado consideravelmente. Falávamos mais alto, fazendo questão que toda a mesa ouvisse, nossos gestos eram mais expansivos e teatrais, apenas Lúcia mantinha a postura do início da noite, exibindo com calma a sua inabalável lógica pessoal. Eu a observava, era evidente que a aproximação por empatia não tinha mais lugar. Restava para apenas a estratégia de criar mais tensão; há quem não resista a uma contrariedade firme. A conversa passou para o interesse contemporâneo sobre moda, interesse que seria muito maior do que na década passada e um indício de degradação espiritual.

– Eu não me importo muito com que eu ou os outros vestem, mas há um limite, claro… É impossível ter fé em um presidente que usa boina com freqüência.

Daquela vez ninguém riu, definitivamente eu havia quebrado alguma regra implícita das conversas em bares. O rosto de Lúcia não desenhava qualquer reação identificável, anunciei que iria ao banheiro. Apenas naquele momento, ao atravessar as mesas para o outro lado do bar, percebi como o ambiente todo havia se transformado. Muito mais gente entrara, a maioria homens com expressões duras. Da música do local, eu só distinguia uma percussão pesada e celulares com toques estranhos disparavam a cada minuto. Ainda havia mulheres para se conhecer, mas elas estavam como que presas em grupos refratários. As discussões e risadas pareciam se dar em um tom escrachado e excessivo, certamente alguém faria algo estúpido logo mais, era inevitável. Essa é a hora da noite quando se percebe que já deveríamos ter voltado para casa.

Resolvi permanecer fora da minha mesa. Já perto do balcão, fiquei com vontade de pedir o de sempre, Joe, apenas para lembrar algum filme clássico. A mente só me trazia pedaços de idéias e lembranças, entre elas o refrão de I trust you to kill me. Eu deveria estar em casa. Veio morna a cerveja que pedi, mas não tive ânimo para reclamar. Depois de um gole nada saboroso, senti alguém tocando o meu ombro. Não tive tempo para me sentir surpreso, o olhar de Lúcia passava alguma preocupação, ela se inclinou e me beijou os lábios, um beijo curto, a sua boca foi logo ao pé do meu ouvido, conseguiu unir calma a uma mensagem enfática: eu deveria escapar rápido, estava começando…

Saí pelos fundos, o clima da rua também estava nervoso. Estrondos viam de diversas partes, revoluções podem começar de madrugada? Queria estar usando um calçado melhor para corrida, eu precisava passar em casa e depois me esconder no interior, talvez atravessar a fronteira. Grupos andavam decididos para a praça central, eu os evitava pelas ruas secundárias, movendo-me de forma oblíqua à marcha da história. De relance, reparei em algumas das mulheres na multidão, eram bonitas, mas apoiavam Hugo Chávez.

3 Comentários

  • Marco Polli ,

    Muito bom … gostoso de ler , diferente … Revoluções por minuto , podem começar a qualquer hora . Me fez rir … o detalhe da boina e a preocupação com o calçado impróprio . Adorei !!!
    Me peguei torcendo , até o fim , para que elas apoiassem Hugo Chávez … Eu , odeio Hugo Chávez … Corre ! rs

    Abraço .

  • Cláudia, obrigado.

    Falando sobre mim – sem querer aqui explicar o personagem do conto, não chego a odiar Chávez, esse é um tipo de sentimento muito especial no fundo. Mas vejo com tristeza que a América do Sul, que ficou por um período livre de ditaduras, esteja regredindo tão rápido.

    Independentemente de como elas queiram se justificar, seja pela direita ou pela esquerda, ditaduras são sempre mostras do nosso atraso.

  • Marco Polli ,

    Usei o termo errado . Para odiar Chávez , seria necessário ter sido de algum modo levada a isso . Não é o caso . Para mim , Chávez é um histriônico , falastrão, narcisista e por aí vai… Tantos “Chávez” por aí , né mesmo ? Não eu não odeio Chávez . Apenas não admiro pessoas com esse perfil. Fica a dúvida: Por que ele não se cala ?… Venelzuelano Chato .

    Correção : Eu não apóio o sistema chavista . É isso .

    Abraço e obrigada por responder .


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