5 Novembro, 2007...2:05 am

A Crônica dos Finados

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Ser cético em um país com tantos feriados cristãos provoca um mal-estar. Tais dias livres parecem vir como uma carona indevida: os outros têm a fé e eu descanso. Como alívio moral, percebo que a legião dos caroneiros é grande, majoritária, já que mesmo aqueles que se apresentam como religiosos entendem muito pouco dessas datas com nomes pomposos em que não é preciso trabalhar. Elas estão se tornando feriados abstratos – existem porque alguma vez foi estabelecido assim, não pergunte a ninguém o que se deve fazer ou no que se deve meditar. Churrascos pagãos logo serão comuns na Sexta-feira Santa.

O Dia de Finados é ao menos uma data auto-explicativa. Ela serve como um contrapeso ao esforço da modernidade para se distanciar dos mortos e do passado. Hoje não se vêem mais as fotos emolduradas na sala principal em que os ancestrais reivindicavam a centralidade na família. O fim da vida está mais asséptico e distante daquela longa agonia no maior quarto da casa, cenas que ficaram renegadas a filmes de época e a alguns do Ingmar Bergman. Importam o presente e o futuro; Ghost seria assim um filme retrógrado. Se os finados estivessem nos observando talvez concordassem com a idéia. “Vocês estão vivos, esqueçam de nós neste feriado, aproveitem!”. “E não basta uma ida medíocre ao Shopping, que escalem o Pico da Bandeira, que superem algum recorde sexual”. E, olhando a preguiça generalizada, a falta de criatividade com as horas, os finados mais uma vez verificariam ao final do seu dia terreno que não estão perdendo lá muita coisa – o Paraíso, ao menos como ouvimos falar dele, é como um arrastado e permanente Dia de Finados.

1 Comentário

  • Marco Polli,
    Valeu esperar por uma crônica sua . Você soube abordar o tema com leveza e humor .Ficou gostoso ler e imaginar um Paraíso .
    ” o Paraíso, ao menos como ouvimos falar dele, é como um arrastado e permanente Dia de Finados.”
    Adorei .
    Abraço.


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