



Janela Indiscreta (esq p/ dir)
Será que para o espectador contemporâneo Hitchcock ainda é um mestre do suspense? Quando, por exemplo, sabe-se dos relatos sobre a intensa reação da platéia ao ver Psicose em 1960, incluindo desmaios e gritos, as diferenças de época ficam bem claras. Depois de tantos anos e de tantos recursos reusados por outros filmes, é mais do que natural que o impacto não seja o mesmo. Porém, como acontece com as obras de fato clássicas, os grandes filmes de Hitchcock contêm valores artísticos de sobra, e mesmo que alguns deles já não sejam tão efetivos quando na época original, o conjunto ainda possui muito a oferecer.
Hitchcock era mestre em diversos recursos cinematográficos, entre eles fazer a história avançar usando apenas elementos visuais, sem a necessidade contínua de diálogo. O diretor inglês ainda poderia ser chamado de mestre da câmera subjetiva, aquela que simula o olhar físico do personagem. Na sua filmografia, tal recurso foi bem usado em produções como O Homem Errado e encontrou o seu auge em Janela Indiscreta e Um Corpo que Cai, justamente filmes em que o ato simples do olhar é uma força importante da história.
Em Janela Indiscreta, estrelado por James Stewart. é muito curioso ver como o costume que o protagonista adquiriu de observar os apartamentos da vizinhança começa a interessar à sua empregada e à sua namorada (Grace Kelly). O passatempo desse fotógrafo recuperando-se de um acidente evolui para um tipo de obsessão; quando Stewart desconfia que um vizinho matou a esposa e sente que precisa fazer algo, a trama tem a sua virada – quebrou-se a ilusão do voyeurismo, percebe-se que não se pode apenas olhar. A mesma idéia aplica-se a Um Corpo que Cai, Stewart – agora no papel de um ex-policial fazendo um serviço particular para um amigo – não consegue apenas seguir e investigar a personagem de Kim Novak. Junto com a irreparável música de Hermann, o trabalho de câmera mostra como o olhar de Stweart é seduzido e enredado pelo seu objeto. Por fim, Novak vai se mostrar como um simulacro, como um show para Stewart se fixar.
Já se falou muito de Janela Indiscreta como uma metáfora para o cinema. Sentamos confortavelmente na sala escura para assistir dramas e ações alheias – e às vezes somos influenciados por elas. Em um mundo saturado por informações visuais de diversas fontes, podemos imaginar que essas imagens estão diluídas, sem que nenhuma consiga ter um impacto significativo. Mas a idéia que vem do limite do voyeurismo ainda soa válida, até óbvia: não conseguimos nos dissociar do que assistimos.
[As séries de imagens do post foram tiradas do Hitchcockwiki, onde para cada filme disponível digitalmente, há uma seção com mil imagens capturadas. Impressiona como que mesmo por imagem estáticas os filmes de Hitchcock são bons de olhar.]




Um Corpo que Cai (esq p/ direita)


