12 Setembro, 2007...4:21 pm

O Messias da Literatura e o Escolhido das Letras

Ir aos comentários


Entrada de Cristo em Jerusalém, Pietro Lorenzetti

Tal como na história pessoal de muita gente, eu tive algumas leituras especialmente marcantes e que me incentivaram a manter uma atenção continuada à literatura. Sem dúvida, um componente dessa atenção é a expectativa de se conseguir mais daquela sensação intensa. No que se refere à prosa, esse meu cânon pessoal passou pela literatura policial, crônicas, O Vermelho e o Negro, Crime e Castigo, O Processo, vários contos de Kafka e Borges, Lavoura Arcaica, entre outros. A referência não é o texto por si, mas o impacto da primeira leitura, o que coloca um padrão difuso mas exigente de avaliação. Por um período considerável, esse rigor fazia-me menosprezar boa parte da literatura contemporânea, inclusive internacional, era só abrir o livro para observar que ali não se tinha um Kafka. Ano passado, cheguei a esta formulação: o que eu estava esperando era um messias literário, um autor que movesse o céu e a terra das letras. Uma espera na verdade contraproducente, pois há sim prazeres e valores em diversas obras, mesmo que não cheguem à altura do impacto de um Borges lido aos 20 anos. O ponto crítico é não abrir mão de uma leitura exigente, mas ao mesmo tempo estar livre de uma expectativa abstrata, platônica. (Afinal, talvez assim, num ambiente mais distraído, o Messias resolva aparecer de fato).

Esse messianismo literário não é propriedade minha e pode ser encontrado no debate literário brasileiro. Quando se diz que não há hoje nenhum Guimarães Rosa ou Graciliano Ramos, revelam-se versões do sebastianismo (rosismo, ramismo). Há também a variante internacional: cadê o nosso Ian McEwan, o nosso Philip Roth? Já outros fazem questão de não fazer referências a autores conhecidos e aguardar a vinda daquele que vai revolucionar o romance mais uma vez, daquele que trará uma literatura inconcebível. A impressão é que estamos num deserto literário aguardando: hora ou outra, alguém anuncia: “é este, ele vai nos redimir”, e outros já se apressam: “não, esse é um falso messias, joguem as pedras”. Acho que a questão é semelhante: não ser condescendente na avaliação da literatura brasileira contemporânea, mas também chegar a uma visão mais matizada e heterogênea sobre o que a literatura pode trazer.

***

A outra face da moeda é o escolhido das letras. Este sabe que a literatura é pouco valorizada, que muita gente de talento não é devidamente reconhecida, que os jornais e revistas têm pouco espaço para falar sobre livros, e que, enfim, a ficção está perdendo terreno ao passo que há uma multidão de novos autores. Porém, tudo isso não importa, ele intui que o seu caso será diferente, que ele receberá uma ovação na sua entrada em Jerusalém, que terá respeito da crítica e até algum do público (falarão mal dele apenas os críticos de quem vale a pena ser inimigo). Enfim, da população numerosa dos que quiseram mas não conseguiram estabelecer uma carreira de escritor, ele está mágica e naturalmente fora. Claro que o escolhido das letras já pressupõe o próprio talento, as suas crises pessoais em relação ao tema apenas demonstram o seu alto grau de cobrança. Ele pode ter as suas dúvidas, mas os outros não as terão. Afinal, é o escolhido.

Não há como negar, escrevo aqui com algum conhecimento de causa, já tive os meus devaneios desse tipo. Pelo menos, eles foram muito breves. Todos, no fundo, têm direito a ilusões de grandeza, desde que não se prejudique gente demais por perto. Assim como a imaginação infantil pode ser divertida, desde que o infante não teste os seus poderes especiais pulando da janela.

1 Comentário


Deixe um comentário