10 Setembro, 2007...1:22 pm

Insolência mais ou menos cirúrgica

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(Incursões na TV paga – 2)

 

Em 2005, quando vi os episódios iniciais de House, a série me pareceu um C.S.I. médico encabeçado por um personagem insolente e carismático. Com o tempo, a série foi colocando em um plano bem mais secundário (e por vezes burocrático) os complexos diagnósticos, são as imposturas e dramas de Dr. House que sustentam agora todo o show. O redirecionamento provou-se popular: da primeira para a terceira temporada, a audiência americana subiu de 13,3 milhões de espectadores para 19,4 milhões, ficando um sétimo lugar no horário nobre (Hollywood Reporter) – o que lá é um posto importante.

Não é segredo, mostrar como é idiota alguma idéia, frase ou atitude da pessoa ao lado tornou-se uma espécie de mania dentro e fora da TV. Mesmo em Friends, os personagens gastam um tempo razoável ridicularizando o coleguinha. Em nosso tempo, as pessoas precisam de uma autovalidação constante, e o outro lado da moeda é que ninguém está a salvo de ser escada para microsatisfações alheias. Se preciso, por que não apontar com sarcasmo a redundância que a namorada acabou de dizer? O personagem House leva essa tendência a um novo patamar: a um hospital. Não são poupados subordinados, superiores, amigos e pacientes, porém – e aqui vem a parte interessante – o protagonista não está interessado apenas em expor a obviedade de alguma idéia ou alguma falha básica de lógica, mas questionar pressupostos da moralidade, da crença religiosa e das relações interpessoais.

O formato de 24 episódios por temporada é excessivo, diluindo a contundência das boas histórias. Nos piores episódios, vemos apenas um personagem mal-criado com as expressões faciais de sempre. Nos melhores, House dramatiza com competência e algum bom-humor tensões sobre ética e pragmatismo, ciência e incerteza, conduta altruísta e a conduta mais efetiva. Não escapam também discussões sobre a existência de Deus e sobre a evocação Dele em momentos críticos. É difícil lembrar de programas ou filmes que foram tão longe nesses temas e ainda se mantiveram como bom entretenimento. Possuindo esses valores respeitáveis no histórico, mas também com as insolências do personagem principal perigosamente perto da exaustão, a quarta temporada começa dia 25 setembro nos EUA.

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