22 Agosto, 2007...4:33 pm

O Encontro entre Cinema e Literatura segundo José Carlos Avellar

Ir aos comentários

A complexidade e o dinamismo da relação entre o cinema e a literatura são realçados por José Carlos Avellar em seu livro mais recente, O Chão da PalavraCinema e literatura no Brasil (Rocco, 440p, R$ 48,50). Nessa obra, o crítico e ensaísta faz ricas explorações de nível amplo – por exemplo, indaga-se sobre o fluxo de consciência literário e a influência que este teve no cinema (ou recebeu dele) – como também olha com minúcia para adaptações que vão de Vidas Secas a Cidades de Deus. É reforçada, entretanto, a idéia de que a transposição de livros para a tela grande é apenas uma das formas pelas quais o cinema e a literatura se encontram.

Além de ter seus textos publicados com freqüencia em jornais e revistas diversos, Avellar mantém um site chamado Escrevercinema. Mais dos seus pontos de vista e modos de análise também podem ser conhecidos nesta entrevista realizada por correio eletrônico.

1– A influência do cinema sobre a literatura geralmente é discutida considerando o impacto experimentado pelos autores, sem pensar muito nos leitores. Já em O Chão da Palavra, você explora diversas linhas de discussão sobre tema, tal como lembrar que a leitura é acompanhada por algum grau de visualidade e imaginação. Como você descreveria a influência do cinema na sua atividade de leitor?
Possivelmente, como me dedico em especial ao cinema, ele influencia não somente a minha atividade de leitor. De quando em quando leio um livro porque vi um filme, e nem necessariamente um filme baseado naquele (ou em outro qualquer) livro. Mas creio que a questão não está aí. Talvez, mesmo sem me dar conta disto, eu leia um livro projetando algo parecido com um filme em minha cabeça, mas igualmente a questão não está aí. O que um livro contém mesmo são imagens verbais e um filme, imagens visuais, não vamos ao cinema buscar imagens verbais, nem ao livro em busca de imagens visuais. Nosso olhar precisa de uma e outra. Possivelmente me dedico ao cinema porque meu modo de ver e pensar as coisas se traduz idealmente em imagens cinematográficas. Idealmente, mas não exclusivamente, porque nossa experiência é sempre múltipla e simultânea. Idealmente, mas não exclusivamente, cinema. Fazer do cinema o seu chão talvez não resulte de uma influência mas de um diálogo, natural, espontâneo, um diálogo como o que existe entre cinema e outros meios de expressão, em especial (convém repetir: especial mas não exclusivamente) com a literatura.
A discussão da relação entre o espectador e a obra, tal como ocorreu entre nós na década de 1960, encaminha a conversa para um espaço mais amplo, na medida em que insiste no fato de o espectador não se reduzir a um observador passivo. Ele é formado pela obra e simultaneamente ele forma a obra, interpreta, analisa, compõe, completa a obra. Se não esquecermos que tanto o espectador de um filme quanto o leitor de um livro influenciam a obra tanto quanto são influenciados por ela, podemos perceber melhor de que modo o cinema se relaciona com a literatura e vice-versa.
A literatura vai ao cinema e os filmes vão às livrarias (e também: filmes e livros vão a exposições e a concertos) porque a obra de arte é mais ampla que seus limites físicos, sai dela, está de fato fora dela, é essencialmente um estímulo à criatividade. Influência do cinema na minha atividade de leitor? Sim, afinal foi o cinema que me alfabetizou, que me ensinou a ler o mundo.

2 – O Chão da Palavra centra-se na mútua influência entre cinema e literatura, uma relação que você enxerga como artisticamente fértil. Porém, não é difícil achar críticos do “cinema demasiadamente literário” ou da “literatura demasiadamente cinematográfica”. Você poderia comentar mais sobre essa questão?
Creio que desenvolvemos o hábito de julgar a relação entre livros e filmes quase só pelos desvios impostos pelo sistema dominante para a produção e circulação de filmes e de livros. São esses desvios que geram uma espécie de complexo de inferioridade de um meio de expressão diante do outro, de modo a que filmes, para se apresentarem ao público com uma garantia de uma boa história ou com um selo de qualidade, se proponham como uma ilustração de um livro. Algumas vezes com a grandiloqüência de quem imagina o audiovisual mais moderno e forte que o texto, outras com a submissão de quem se sente inferior ao peso cultural da obra adaptada. Do mesmo modo, pressionado para se apresentar ao leitor com uma cara moderna, alguns livros se apresentam não propriamente como um roteiro de cinema ou como se fossem o relato de um espectador que conta um filme que viu, mas como uma reprodução superficial da sensação que a projeção de um filme provoca na platéia.
Talvez hoje, porque vemos mais filmes em casa, na televisão, no DVD, porque vemos mais televisão que cinema, exista uma literatura demasiadamente cinematográfica na internet. O audiovisual na tela pequena da TV, dirigido a um espectador desatento (pelo menos em comparação com a atenção dedicada, exclusiva, do espectador na sala escura do cinema), tem estimulado uma narrativa rápida e breve, com muitos cortes e muitos primeiros planos, e com o som, o diálogo ou a música, explicando e comentando a imagem. Algo assim encontramos nos textos que circulam em blogs. Este modo de escrever tudo abreviado, pela metade, de buscar uma grafia que reproduz o som ou se apresenta como imagem já se espalha pela imprensa e começa a esboçar narrativas literárias demasiadamente audiovisuais.
Todos estes demasiados aqui significam menos. A verdadeira relação entre o cinema e a literatura não se dá nesta tentativa de levar um meio a imitar a aparência do outro, mas a desenvolver instrumentos próprios, a relacionar-se com a estrutura da outra obra. Penso que o cinema se encontra na base das estruturas narrativas do século 20 e que algumas vezes, por exemplo, escrevemos cinema, pintamos cinema. Mas não porque livros e quadros se tornaram parecidos com filmes. No caminho inverso o mesmo: um filme dialoga melhor com um livro quando se comporta como um leitor e não como um ilustrador do texto.

3 – Considerando o caso de diversas obras, de Um Amor de Swann a Lavoura Arcaica, você discute elementos críticos na adaptação de uma obra literária, entre eles está o ponto de vista em que se dá narração. Em que medida você considera a fidelidade ao livro importante e o que caracterizaria uma adaptação fiel?
O mexicano Paul Leduc, em O Cobrador, in God we trust levou para o cinema alguns contos de Rubem Fonseca compondo com eles uma história que se arma em torno do texto de O Cobrador – que está no papel como uma espécie de registro de um discurso ou delírio interior. Na tela o personagem é o mesmo, mas não diz uma única palavra. Nada mais infiel ao texto, nada mais fiel à literatura. Fiel à literatura e ao cinema a um só tempo. Uma semelhante infidelidade fiel podemos encontrar na transposição de A Hora da Estrela de Clarice Lispector para o cinema. Suzana Amaral eliminou da história a personagem central do livro, o escritor Rodrigo S. M., que inventou a nordestina Macabea para falar dele mesmo, escritor – expressão inventada por ele mesmo – de corpo cariado. É pena que Luchino Visconti e Joseph Losey não tenham conseguido produzir suas infidelidades fieis de Proust. Lavoura Arcaica do Luiz Fernando Carvalho e Um Copo de Cólera do Aluízio Abranches não são se mantêm fiéis a Raduan Nassar porque seguem o texto ao pé da letra, mas porque se propõem como uma possível leitura do livro (uma leitura necessariamente interpreta o texto: como ler sem interpretar?) Os filmes não apenas ilustram o texto, mas agem como qualquer leitor: inventam estimulados pela obra.
Como disse acima, nenhuma questão foi tão discutida quanto à relação entre cinema e literatura e nenhuma discussão desviou-se tanto do que realmente importa como esta. Qualquer transposição, a de um rosto para uma música, como propôs Virgil Thomson em seus retratos musicais, a de uma pessoa para palavras, como propôs Gertrude Stein, a de um livro para um filme, ou a do cinema para a literatura, é feita por meio de uma relação critica e não por uma impossível reimpressão da obra em outro suporte. Porque nenhum suporte é neutro e porque a expressão artística assim o exige, ler, ver, pensar, contar, é criticar. Não esqueçamos a imagem formulada por Fernando Pessoa: o espelho reflete certo porque não pensa.

4 – O cinema nacional deu bastante atenção à nossa literatura. Vários clássicos já foram adaptados. De forma geral, você considera que esse esforço foi bem-sucedido? Quais as adaptações você destacaria como as mais bem resolvidas?
Tivemos um momento em que o dialogo se realizou de modo intenso, no período do Cinema Novo, em transposições literárias (Vidas secas, Macunaíma, A Hora e Vez de Augusto Matraga, São Bernardo talvez sejam os exemplos mais marcantes) ou numa interlocução (como a que se costuma apontar entre Deus e o Diabo na Terra do Sol e Euclides da Cunha, José Lins do Rego e Guimarães Rosa). Lembro-me do Joaquim Pedro de Andrade sugerir, depois de O Padre e a Moça, que deveríamos estudar o modernismo de 22 para fazer cinema, e de Nelson Pereira dos Santos dizer que na inexistência de tradição de um cinema voltado para as questões populares, a literatura brasileira era o exemplo de composição capaz de estimular os novos diretores. O que se plantou então foi algo maior do que qualquer coisa comparável a uma linha de produção de filmes adaptados de obras literárias (o que o governo militar tentou montar em certo momento, movido talvez pela sensação de que o texto garantiria uma seriedade e um caráter não político que eles não encontravam nos filmes). Criou-se, então, uma interlocução permanente, um desafio mútuo e vivo que dificilmente pode ser medido em termos de adaptações mais ou menos destacadas.
Claro, é fácil apanhar na memória algumas obras que passaram a existir como um duplo, um livro e um filme, algumas citadas acima, outras que logo vêm à lembrança como Memórias do cárcere ou Guerra conjugal, mas creio que se deve destacar mesmo é a existência de uma constante troca de estímulos que conduziu, por exemplo, para citar um exemplo bem recente, Julio Bressane a buscar em seu novo filme, Cleópatra, uma invenção de imagens diretamente inspirada na invenção poética da literatura e língua portuguesa.

5 – Considerando a literatura brasileira mais contemporânea, que livros você gostaria de ver também adaptados para o cinema?
Antes de mais nada, voltando um pouco para trás, gostaria de ver transpostos para o cinema alguns dos processos de composição de João Cabral de Melo Neto, de Manuel de Barros, e em especial do Graciliano Ramos de Angústia. Não uma adaptação das histórias contadas em romances e em poemas mas de uma conversa com os modos de contar. Mutum de Sandra Kogut, que chegará aos cinemas em breve, nos lembra o quanto ainda existe pó descobrir em Guimarães Rosa. As narrativas de João Gilberto Noll e as de Raduan Nassar são também bons estímulos para a invenção cinematográfica.
Mas na verdade devo dizer que não sou a pessoa indicada para responder esta questão e que estou aqui apenas me deixando levar pela armadilha que nos leva a propor uma resposta para não deixar uma pergunta em branco. De fato, comigo o que se dá é a operação inversa, e a pergunta que poderia caber é, considerando o cinema brasileiro contemporâneo, que livros eu gostaria de ler ou que filmes eu gostaria de ver (digamos, ainda que a palavra aqui caiba menos ainda:) adaptados para a literatura. Creio que algo entre o que tem feito o documentário (uma forma de escrever que dialogue com imagens como as de Jogo de Cena de Eduardo Coutinho, como as de Acidente ou O Andarilho de Cao Guimarães, como as de Justiça ou Juízo de Maria Augusta Ramos) e o que tem feito nosso cinema mais de poesia (para lembrar exemplos bem recentes: Ana, episódio de Paris Je T‘Aime dirigido por Walter Salles, O Céu de Suely de Karin Aïnouz, Cinema, Aspirina e Urubus de Marcelo Gomes).

6 – Em O Chão da Palavra há uma série de perguntas e provocações interessantes, algumas delas são deixadas em aberto pelo texto. Haverá um prosseguimento dessas linhas de análise?
A questão que me levou ao Chão da Palavra (a literatura inventou o cinema que reinventou a literatura que reinventa o cinema) evidentemente não se esgota nele, e eu continuo a examinar esta relação entre palavra e imagem nos textos que publico em Escrevercinema. Acredito que o melhor modo de pensar o cinema, e possivelmente também um bom modo de pensar a literatura, é ver a imagem como o chão da palavra e vice versa, a palavra como o céu da imagem.

2 Comentários

  • franciele gomes da silva

    oi, sou aluna do curso de Letras e pretendo fazer meu tcc sobre a comparação da obra literária com o filme do mesmo,o livro que escolhi foi A HORA DA ESTRELA DE CLARICE LINSPECTOR. Mas não estou encontrando material para isso , e gostaria de receber algumas dicas de livros nessa linha e se essa obra comentada acima fala sobre o livro da Clarice.obrigada aguardo retorno

  • Pelo que me lembro, o livro cita a “A Hora da Estrela”, mas sei que não faz uma análise detalhada como em “Vidas Secas” e outras adaptações. Há pouca bibliografia sobre o assunto. Talvez compense você dar uma olhada nos catálogos de tese da UNICAMP, USP…
    Boa sorte.


Deixe uma resposta