20 Agosto, 2007...3:16 am

Elogio da Incompletude

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De Walter Benjamin, em um ensaio de 1936:

“Cada manhã recebemos notícias de todo o mundo e, no entanto, somo pobres em histórias supreendentes. A razão é que os fatos já nos chegam acompanhados de explicações. Em outras palavras; quase nada do que acontece está a serviço da narrativa, e quase tudo está a serviço da informação. Metade da arte narrativa está em evitar explicações. Nisso, Leskov é magistral. (Pensemos em textos como A Fraude e A Águia Branca.) O extraordinário e o miraculoso são narrados com a maior exatidão, mas o contexto psicológico da ação não é imposto ao leitor. Ele é livre para interpretar a história como quiser, e com isso o episódio narrado atinge uma amplitude que não existe na informação.”
[O Narrador, Obras Escolhidas I , Trad. Sérgio Paulo Rouanet, ed. Brasiliense]

Nikolai Leskov é um escritor russo (1831-1895). Desconheço completamente os seus textos, mas o que Benjamin comenta faz sentido para diversos autores, sobretudo para Kafka. Este foi um especialista em desenhar detalhes e fornecer explicações menores para as ações de seus personagens e, ao mesmo tempo, deixar qualquer interpretação maior para as suas narrativas fora de alcance, esvaziada de antemão. Essa capacidade ficaria ainda mais gritante nas buscas complicadas da crítica em dar uma chave-geral para a leitura do autor tcheco. Já em 1966, no ensaio O Silêncio de Kafka, Carpeaux afirmava:

“A época das grandes interpretações globais da “Obra” de Kafka já passou: homo religiosus ou moralista radical, profeta pós-bíblico ou visionário surrealista, crítico de estruturas sociais ou caso psicanalítico – as discussões infinitas não produziram nem produziriam soluções inequívocas.”
[Ensaios Reunidos II, Topbooks]

Essas aspas em “Obra” não são pejorativas, mas relacionam-se à discussão principal do ensaio que é sobre o sentido da ordem de Kafka para que seus textos fossem queimados. Um ato radical de silêncio, de incompletude, mas que, de alguma forma, já estava presente nas suas narrativas.

1 Comentário

  • Quem poderia julgar Kafka…se ninguém jamais esteve acima dele …Ele reinventou a literatura, depois dele, ela não poderia ser a mesma.
    ” Kafka , esquiou em cascalho , para provar , que não se tratava de neve . “


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