
“Aventura”, de Alexandre Soares Silva, é um texto curto e impagável, aqui vai uma passagem:
“Suponho que para gostar de aventura, como gênero, é preciso acreditar que a masculinidade é um jogo, é realmente um jogo. Ela lhe foi dada justamente para isso, para que você a use. Fala-se tanto nos mistérios da feminilidade – por que não acreditar nos mistérios da masculinidade?
Pode-se ser um virtuose da masculinidade, como se pode ser um virtuose do violino. E é isso que é um herói, não? Um gênio da masculinidade?”
Entre os filmes que sempre voltam à minha está a parte I de O Poderoso Chefão (1972). Por esse motivo, o filme e o texto haveriam de se chocar na minha mente em algum instante. Então, pergunta-se: o que o Chefão diz sobre os mistérios da masculinidade?
O arco narrativo de Michael Corleone – filho mais novo distante dos ‘negócios da família’; aquele que suja as mãos após a tentativa de assassinato do patriarca; o novo líder – descreve uma imersão imprevista mas logo firme dentro de alguns deveres masculinos antigos. Estes pressupõem que alguém que haja como homem – mesmo que seja uma mulher – deverá estar disposto e preparado para cometer alguma violência na defesa dos seus interesses e das suas pessoas próximas.
Na maior parte do tempo, o poder que Michael recebeu é exercido apenas na tentativa de conservar esse mesmo poder. Outros pólos de força vêm desafiá-lo constantemente. Do lado interno, traidores devem ser descobertos e punidos. Uma linha crítica se coloca: mostrar-se condescendente e menos ameaçador é se tornar vulnerável, já a violência em excesso coloca a sua legitimidade em jogo e atrai reações ainda mais fortes. Na última parte do filme, Michael exerce a sua posição com até mais eficiência, porém ele o faz em contínuo tom melancólico, soturno. Diferentemente de Scarface (1983) ou de Os Bons Companheiros (1990) – matizes diferentes da masculinidade – na trilogia de O Poderoso Chefão não há espaço para usufruir e gabar-se do que se conquista. Não é um dever leve.
Muitas vezes, usa-se para O Poderoso Chefão o adjetivo de shakespeariano, lembrando de peças como Ricardo III. É uma comparação vaga, mas eu até concordo no que diz respeito ao tom simultaneamente trágico e de elevação estética. Basta lembrar da trilha de Nino Rota para nos sentirmos mais graves, mais importantes, fatalistas: cometemos alguns atos cruéis, tivemos que fazer o que tinha que ser feito, não deveríamos ter agido como homens?
Parece difícil de imaginar essa masculinidade firme mas de pose aristocrática tendo hoje espaço fora da tela desses três filmes. De um lado, há em nossos dias o elogio pitbull da violência e no outro extremo, a radicalidade deixa-disso, que faz qualquer demonstração de força – seja verbal, de talento, de poder – parecer errada e culposa em si. A popularidade da série do Padrinho, entretanto, não parece ter sofrido radicalmente – as partes I e II vêm se mantendo há anos entre os 5 filmes mais populares na IMDB. Pode-se supor que outros elementos da masculinidade fiquem também cada vez mais restritos à ficção e, mesmo sem utilidade prática, mantenham um público espectador fiel.
[Obs: a imagem é da parte II (Paramount, 1974), com aquele trabalho estupendo de fotografia do Gordon Willis]


