(Obs.: Aproveitei este material em um artigo maior para o Le Monde Diplomatique Brasil)

Buscando ter uma melhor idéia sobre a importância das adaptações literárias no cinema, eu fui atrás de algumas listas de melhores filmes para saber a proporção de roteiros originais e adaptados.
Primeiro, eu analisei o ranking de 100 filmes da AFI (American Film Institute) – versão 2007 (link). Dizendo respeito apenas a filmes americanos, é o tipo de lista em que Cidadão Kane sempre ganha, mas que também dá espaço para Pulp Fiction. Dos 100 filmes, 43 foram adaptados/inspirados em romances ou contos, 6 foram baseados em livros de não-ficção, 5 em peças ou musicais de teatro, restando 46 roteiros originais. As adaptações de romances incluem Rastros de Ódio, Psicose, A Primeira Noite de um Homem, Operação França, Tubarão e O Silêncio dos Inocentes.
Depois, olhei a lista do IMDB (Internet Movie Data Base) do dia 28/06. Ela é aberta à votação dos usuários cadastrados e engloba filmes de todas as nacionalidades. Naturalmente há um viés americano pela língua e pela origem do site. A parcela das adaptações literárias é da mesma ordem: 42 dos 100 filmes mais bem cotados são de adaptações de romances ou contos. Entre as adaptações estão Janela Indiscreta, Rashomon, Forrest Gump, Cidade de Deus, Clube da Luta, e Réquiem para um Sonho.
Segundo os dois rankings, o cinema apóia-se de maneira intensa na literatura, porém deve-se ressaltar que praticamente lá não se encontram grandes clássicos, mas sim obras contemporâneas aos filmes e sobre as quais pouco se vê discussão em revistas literárias. Quem já leu o romance em que baseia Um Corpo que Cai? As exceções são Apocalypse Now, que apesar de não ser uma adaptação direta e oficial é inspirado fortemente no romance O Coração das Trevas de Conrad, e Laranja Mecânica, adaptado do romance homônimo de A. Burgess. Por aqui, Cidade de Deus de Paulo Lins foi lançado pela Companhia das Letras em 1997 e despertou debates e análises antes do filme ser lançado. Entretanto, nas duas listas não se encontram adaptações de livros de Flaubert, Proust, Kafka, Joyce, nem mesmo de autores americanos como Melville, Hawthorne, F. S. Fitzgerald ou Hemingway, embora todos eles tenham obras vertidas para o cinema.
Em busca de mais referências a adaptações da “alta literatura” – também não gosto do termo, mas enfim – analisei uma lista maior: ‘os 1000 melhores filmes já feitos’ do New York Times – sim, um milhar de filmes (link). Inicialmente, procurei clássicos literários anteriores ao século XX, achei 15 filmes adaptados de obras dessa categoria, incluindo títulos de Laclos (Ligações Perigosas em duas adaptações), Dickens (David Copperfield, Grandes Esperanças, Oliver Twist) e Stevenson (O Médico e o Monstro). Lembrando que preferi deixar as peças teatrais de fora. Ao chegar ao século XX, identificar a “consagração literária” fica mais difícil, como deve ser realmente. De qualquer modo, segundo as minhas arbitragens, encontrei mais 17 produções; entre os autores estão Thomas Mann (A Morte em Veneza), Lampeduza (O Leopardo), Nabokov (Lolita) e Kundera (A Insustentável Leveza do Ser). Chega-se a um total de 32 filmes, ou seja, 3,2% da lista do NYT. (Mesmo mudando algumas das minhas inclusões ou exclusões, creio que o número não passará muito disso).
Voltando aos rankings da AFI e IMDB, os mais de 40% de filmes adaptados de romances ou contos não deixam dúvidas sobre a importância da literatura para o cinema. Porém, as listas da AFI, IMDB e NYT mostram pouquíssimas versões do que costumamos a encarar como clássicos ou alta literatura. É uma relação intensa, mas não do tipo óbvia, em que um grande livro se traduziria facilmente em um grande filme. Tal ligação mostra também como o cinema se tornou um grande suporte para a narrativa, buscando textos na massa de produção literária e criando filmes importantes por si mesmos.
Como comentário final, quero retomar uma observação da primeira postagem. Mesmo que não estejam trabalhando em adaptações, os roteiristas e diretores são influenciados de alguma forma pelos livros que leram. Mesmo sutilmente, fragmentos de Faulkner, Kafka e Proust e outros surgem para nós na tela grande.


