28 Junho, 2007...1:38 am

As Dedicatórias Exiladas

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Gostando de muita coisa que li no blog do Antônio Prata dentro do projeto Amores Expressospor favor, não saque a arma no saloon, eu sou apenas… – fui em busca de algum livro dele. Comprei O Inferno Atrás da Pia por um sebo na internet, uma saída para esses tempos de literatura cara. O exemplar está em bom estado, mas há um problema: ele exibe uma dedicatória do próprio autor. Com a quantidade de livros que hoje os autores autografam, nada mais natural que alguns deles apareçam em sebos. Mesmo assim, sinto um desconforto, parece que sou um receptor de mercadoria roubada, ou que estou guardando um segredo que não pedi para ouvir. Enfim, é uma dedicatória exilada.

O caso lembrou-me de um exemplar de Cartas a um Jovem Poeta, do Rilke, que está na biblioteca do IEL na Unicamp. O livro foi doado e possui uma dedicatória amorosa. É automático pensar que aquele que a escreveu, vou chamá-lo de Paulo, não foi correspondido no amor e ainda teve um dos seus presentes doados, virando um registro público do seu fracasso. E que bandida foi essa tal de, digamos, Renata…

Mas claro que podemos pensar de outra maneira, podemos imaginar Paulo como uma canalha rodriguiano. Ele apenas pegou a dica um amigo: “dê aquelas cartas de Rilke, que é batata!”. Ele nunca chegou a ler o livro – depois do vestibular, não leu nada que lembrasse literatura –, inventou uma dedicatória melosa e pronto. Muitas mulheres precisam de um gesto, de um símbolo para mergulharem de vez em um relacionamento. Algumas prezam um jantar caro, para outras já bastam esfihas do Habib´s; certas mulheres vêem o sinal em um carinho específico que você descobre por si, outras em um livro que elas já conhecem mas adorariam ganhar de presente. Esse foi o caso de Renata e o livro do Rilke, foi ele que abriu o caminho para que Paulo estafasse a moça emocionalmente e fisicamente.

Alguma hora, Paulo, o canalha, iria sumir e sumiu. A família de Renata ficou aliviada, tratou de jogar no lixo as lembranças paulinas que estavam em casa. Com o livro, porém, a mãe ficou com pena e tratou de doá-lo para a biblioteca. Sim, foi um erro. Renata descobriu e apesar de estudar em outra universidade, encontra tempo para passar na Unicamp. Já sabe de cor onde fica aquela obra de capa amarela, torce para que ninguém a tenha retirado, reconhece fácil a lombada. Ela pega o livro e relê a dedicatória sentimental, relê os conselhos gentis e ponderados de Rilke ao jovem poeta, nada faz sentido, lembra, “canalha”, “canalha”.

2 Comentários

  • Eu odeio livros dedicados, e também não os dedico, e quando compro no sebo procuro um que não tenha essas marcas, me sinto mal diante da dor e das alegrias dos outros, pena que comprando na internet isso fuja ao controle.

  • Nessa compra, s.o., o erro foi até meu: havia a descrição do estado do livro, citando a dedicatória em alguma parte, mas eu passei batido.

    Ler dedicatórias assim é como ler correspondência alheia.


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