25 Maio, 2007...9:25 pm

Tantas palavras

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Miguel Conde no blog Prosa online retoma o assunto sobre a “slush pile” (pilha de lama), termo que se refere ao acúmulo de originais enviados espontaneamente às editoras. Ou seja, estamos falando dos textos dos pobres coitados que não têm um agente literário, apadrinhamento, ou um convite direto da editora. Recordei-me de um artigo da Salon intitulado “Confessions of a slush pile reader“, eis um trecho:

“Antes, eu achava que a pilha de lama era ótima porque eu poderia descobrir algum gênio talentoso e que todos esses autores sem agentes, labutando na obscuridade, eram nobres. Agora considero que todo autor sem agente seja levemente psicótico e perturbado e que todo manuscrito não solicitado seja ruim.”

Tentei me lembrar de referências nacionais à pilha de lama. Na conhecida matéria da Folha, “A literatura brasileira dividida por quatro”, de 2003, foi feita uma pergunta sobre novos escritores, Bernardo Carvalho respondeu: “Teve uma época em que imbuído de sentido cívico eu disse a mim que teria que ajudar algum gênio a ser publicado. A Companhia das Letras tinha pilhas de manuscritos que ninguém conseguia ler. Eu li por três dias. Fiquei com uma depressão profunda. Pensava: vou começar a escrever como esses caras.”

Numa entrevista ao Rascunho em 2005, Luiz Schwartz, editor da Companhia das Letras, foi indagado se já recebera “bons originais de autores totalmente desconhecidos, de quem não tivesse ou recebesse qualquer referência”. Ele respondeu: “Sim, foram poucos os casos, mas já publicamos originais que chegaram pelo correio, como aconteceu com os livros de José Roberto Torero, Marcelo Duarte e alguns da Letrinhas. Descobrir novos talentos é a principal tarefa de um editor, e não é fácil. Se fosse…”.

E há mais tempo, em 1999, a Folha teve a idéia (mais do que questionável) de mandar um romance pouco conhecido de Machado de Assis a grandes editoras como se fosse um texto inédito. Naturalmente, nenhuma demonstrou interesse, mas ao menos a reportagem compilou dados sobre o recebimento de originais:

“Na editora Objetiva, por exemplo, chegaram 547 originais em 1998. De 1º de janeiro deste ano até sexta-feira passada, já são 232. “Lemos, no mínimo, 20 páginas de cada livro”, diz Isa Pessoa, diretora editorial da Objetiva. “Temos duas pessoas para isso e também usamos colaboradores de fora.”
A editora Rocco recebe cerca de 40 originais por mês. “Há períodos em que o número chega a 80″, diz a gerente editorial Vivian Wyler. Três funcionários são encarregados da primeira leitura e, quando interessa, o texto é passado para uma segunda e uma terceira opinião. “No mínimo, são pessoas com mestrado em literatura.”
Já na Companhia das Letras, que recebe cem originais em português por mês, o trabalho de avaliação é feito por sete pessoas. “Fora isso, temos pareceristas especializados”, afirma Ruth Lanna, que gerencia a seleção de manuscritos.
As três editoras já descobriram autores por esse método: Antenor Pimenta, Maurício Luz (Rocco), Cristina Moutella, Fernanda Young (da Objetiva), Sílvia Zatz e Elvira Vigna (Cia. das Letras).”

Em setembro do ano passado, o caderno Prosa & Verso de O Globo fez uma reportagem especial sobre a pilha de lama. Sobre a reportagem, Conde diz que: “A maioria das empresas que procurei simplesmente não publicou nada saído de lá nos últimos anos (a Rocco era a única que tinha uma política de aproveitamento regular do material recebido pelo correio — mesmo assim, a média era de apenas cinco livros por ano).” Em fevereiro deste ano no Todoprosa, Sérgio Rodrigues publicou um divertido “Parece um Parecer”, que poderia se referir em parte a uma avaliação de um original não solicitado. Já Júlio Borges, do Digestivo Cultural, aconselha os novos autores a publicarem na internet e esquecerem o livro convencional, uma das razões é justamente que “os editores estão cansados dos originais sem qualidade que recebem de desconhecidos todos os dias”.

A minha atenção sobre a pilha de lama não é gratuita. (Atenção para o twist dramático). Eu mesmo já mandei em 2000 um livro de narrativas curtas para quatro editoras, sendo que sua recusa foi devidamente avisada por cartas alguns meses depois. Acabou não sendo algo ruim, em menos de um ano depois eu já passava a não gostar de boa parte dos textos, preferindo deixá-los inéditos. Foi curioso, de qualquer modo, imaginar aquelas páginas tamanho carta encadernadas no xerox próximo fazendo volume nas editoras, passando ou não por uma avaliação, para depois serem encaminhadas para a reciclagem ou ao depósito de lixo. Até prefiro pensar numa grande fogueira, uma massa informe de letras virando fumaça. Seria um tipo de “Fahrenheit 451″ preventivo, que não queimasse livros por seu potencial subversivo, mas sim pré-livros que não causam interesse.

Do ponto de vista das editoras, a pilha de lama demanda bastante trabalho para um retorno mais do que incerto. Várias editoras americanas simplesmente não aceitam esse tipo de originais, restringindo o diálogo a autores já conhecidos e a agente literários. No caso do Brasil, devemos sempre lembrar que literatura nacional contemporânea não é nenhuma mina de ouro. As pessoas efetivamente envolvidas na leitura da pilha de lama devem exibir um comportamento estranho, pontuando horas contínuas de tédio com gargalhadas explosivas.

Do ponto de vista de um escritor é cruel imaginar um trabalho que demandou tempo e energia consideráveis ser mais um dentro do amontoado de textos mal-amados. Já para o leitor, o maior risco é que autores com muito potencial tenham se decepcionado fatalmente com esse processo. A maioria dos romances não pode ter sua qualidade atestada apenas por uma leitura das suas primeiras páginas, o objeto de avaliação da slush pile. Podemos imaginar um autor sem contatos para apadrinhá-lo, sem a disposição para uma publicação independente ou para ficar alimentando um blog. Esse autor sem brio e paciência possui talento literário, mas é “só”, algo insuficiente, óbvio. Assim, podemos visualizar a sua desistência completa. Ele havia feito o concurso para o Banco de Brasil há alguns anos e foi chamado agora. Está no setor de abertura de contas, observando a estranha verruga na bochecha da bela cliente à frente, enquanto que, dentro dele, grandes clássicos em potenciais da nossa literatura estão se apagando lentamente.

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