9 Fevereiro, 2007...2:24 am

Perspectivas KUBRICKanas

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imagem editada de Dr. Fantástico (MGM)
Imagem e subtítulo adaptados de Dr. Fantástico

O temor de uma guerra nuclear apocalíptica consolidou-se no fim dos anos 50 com a bomba de hidrogênio e a demonstração de sua força em testes a céu aberto. Perto da bomba H, os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki foram terríveis em si, mas leves como prenúncios. Preocupado e interessado, Kubrick lê nessa época dezenas de livros sobre o tema e chega a conversar com estrategistas militares ingleses durante as filmagens de Lolita em 1961. Como resultado dessas pesquisas, Kubrick compra os direitos do romance Red Alert, de Peter George. O enredo do livro gira em torno de um ataque nuclear não-autorizado à URSS começado por um alto comandante do exército americano. Segundo a lógica desse comandante, o presidente dos EUA seria então obrigado a lançar um ataque total aos soviéticos para evitar as conseqüências de um contra-ataque massivo. Kubrick e alguns colaboradores começam a trabalhar no roteiro em 1962, concebendo um drama/suspense que seria intitulado The Edge of Doom (vou me omitir nesta tradução). Entretanto, durante esse processo de adaptação do livro, Kubrick decide mudar de abordagem e passa a elaborar o roteiro como uma comédia; ele declararia depois à revista Life:

     “Por que a bomba deveria ser abordada com reverência? A reverência pode ser um estado mental paralisante. Para mim, o senso do cômico é a resposta mais eminentemente humana para os mistérios e paradoxos da vida. Eu espero apenas que alguns deles sejam iluminados pelos exageros e pelo estilo do filme. E eu não vejo razão para um artista fazer algo mais do que produzir uma experiência artística que reflita o seu pensamento.”

As contribuições do escritor Terry Southern para o roteiro e as improvisações de Peter Sellers durante as filmagens em 1963 aprofundaram ainda mais o humor negro do filme. No ano seguinte, na atmosfera de receio que continuava a vir da Guerra Fria, o público americano garantiu uma alta bilheteria para Dr. Strangelove (or How I Stop Worrying and Love the Bomb). No Brasil, ele ganhou o título de Dr. Fantástico, em Portugal, de Dr. Estranho Amor. Pena que aqui e lá omitam o subtítulo “ou como eu aprendi a parar de me preocupar e a amar a bomba”. [o singular trailer no Yoube] 

Havia algo absurdo sobre o destino da humanidade ser decidido em reuniões de alto escalão nos EUA e na URSS, como  de fato aconteceu na crise de mísseis de Cuba em outubro de 1962. A perspectiva cômica em Dr. Fantástico não era apenas um exercício de ironia, mas uma forma artística privilegiada para o assunto e para época. Sua recepção e importância nos anos sessenta são discutidas por Jeremy Boxen em Just What the Doctor Ordered. Esse artigo destaca que o filme de Kubrick situa-se bem no início da tendência antimilitarista que viria logo a ressoar forte na cultura norte-americana. Depois de mais de 40 anos, o impacto ao assistir Dr. Fantástico  não é naturalmente tão intenso, e alguns de seus elementos cômicos, por vezes com um ar “Jerry Lewis”, não se sustentam mais. Porém, na minha opinião (e de mais gente), o filme ainda é engraçado e esteticamente inspirador.

Há também algo de absurdo e imponderável sobre o aquecimento global. É fácil jogar a culpa nos EUA ou em Bush, mas isso é de fato um escapismo. Estamos completamente enredados no mundo da energia barata do petróleo; contamos com ela para que o nosso cafezinho seja em conta ou para que um dia possamos fazer aquela viagem há muito planejada. O petróleo é a nossa matrix e para lidar com o tema precisamos de perspectivas inusitadas – políticas, técnicas e artísticas. Para finalizar, deixo uma foto feita por K. S. Matharu no Parque Nacional Los Glaciares na Argentina. Quando vi essa imagem, pensei de imediato que ela poderia estar em um filme de Kubrick sobre aquecimento global.

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3 Comentários

  • A citação de Kubrick é originalmente da Revista Life de março de 1964. Ela está no artigo citado de J. Boxen. O texto em inglês é:

    “Why should the bomb be approached with reverence? Reverence can be a paralyzing state of mind. For me the comic sense is the most eminently human reaction to the mysteries and the paradoxes of life. I just hope some of them are illuminated by the exaggerations and the style of the film. And I don’t see why an artist has to do any more than produce an artistic experience that reflects his thinking.”

  • Fantástica a fotografia! Parabéns… Adorei a adaptação.
    Kubrick realmente foi máximo.

  • Valeu, Flávio. Eu sou suspeitíssimo ao falar de Kubrick.


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