Via xkcd, descobri este TV Tropes , um catálogo de clichês, arquétipos, recorrências, lugares comuns, repetições, cacoetes, déjà-vus, manias e situações-bumerangues que sempre voltam nas narrativas outra vez. Parece-me que o projeto começou abordando seriados de TV, e foi expandindo para filmes, quadrinhos, livros, games. Uma percepção acertada dos participantes é que é virtualmente impossível fazer uma narrativa sem tropos, e que muitas vezes a tentativa de fugir de um lugar comum serve para reforçar outro. Pensando em um exemplo: se o final feliz ainda é uma recorrência em novelas e comédias-românticas, o final infeliz é o lugar comum da literatura séria. Neste campo, um final feliz cria mais indignação do que pedofilia – alguma hora aparecerá o Nabokov do final feliz.
Não existe ausência total de tropos, mas lugares comuns que são aceitos ou não segundo cada época, publico e gênero. Da categoria dos tropos desacreditados pelo o público atual, alguns dos exemplos do TV Trope são:
- Foi tudo um sonho
- Amnésia fácil
- Está tudo calmo demais
(O melhor do site são os nomes para os tropos. Quando a narrativa quer passar uma moral, mas os elementos da história a contradizem involuntariamente, temos a categoria do Esopo Quebrado. Um exemplo vem das narrativas de ação voltadas para o resgate de uma pessoa, reforçando a idéia de que uma vida só já é sagrada. Porém, até chegarem ao resgate, explosões, perseguições e tiroteios colocam um grande número de inocentes em risco, inclusive civis que só estavam passando com o carro na área. Chamaram essa subcategoria de Um Milhão é uma Estatística. Não percam também a descrição do tropo Nietzsche Wannabe)
Para o meu caso, há muitos tropos que se tornaram insuportáveis, aqui vão apenas três:
- O Retorno do usuário. O traficante nega vender para um usuário específico e mais tarde esse usuário contrariado será chave na Queda do império de drogas.
- Super-herói contestado. No começo, as suas ações são recebidas com aplauso pela cidade. Trinta minutos de filme depois, manchetes de jornais estampam indignação e revolta com o vigilante. Os filmes do Super-homem nos anos 70 já tinham isso.
- Brigando pela custódia dos filhos. Em qualquer gênero de filme, em qualquer tipo de história, cria-se legitimidade para o personagem mostrando-o em audiências judiciais disputando o direito de ver os filhos mais vezes. Isso chegou ao cúmulo em O Gângster, de Ridley Scott, cujo roteiro parte de uma história real. Acho que desvios da realidade são totalmente permitidos, mas não precisavam chegar ao ponto de colocar Russel Crowe nessas cenas frente ao juiz, sendo que o policial real da história, Richie Roberts, nem tinha filhos.
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Comédia-romântica é o gênero que tem menos pudor no uso de lugares comuns. O chato é que algumas delas até começam com situações promissoras e boas piadas (afinal há ótimos roteiristas de humor nos EUA), apenas para irem se arruinando depois de quarenta e cinco minutos – os lugares comuns crescendo exponencialmente até a história terminar. Esses tropos irritam não só por mostrar que você pagou por uma mercadoria repetida, mas por lembrar a onipotência dos clichês na vida real. Clichês da vida e dos filmes são diferentes, mas eles têm esse mesmo poder gravitacional – não importa onde você começa, as suas intenções de partida, a vida vai lhe direcionando para eles. Por vezes, um casal se propõe a ser a vanguarda do relacionamento e saltitar sobre os problemas em que as “pessoas comuns” afundam o pé, isso só para dois meses depois estarem repetindo jargões e expressões cansadas, usando tropos que imaginavam inaceitáveis nos dias de hoje. Os cacoetes da comédia-romântica são um grande golpe no orgulho pessoal.
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Como já deu para notar por esse blog, passei parte importante da infância e adolescência na década de 80. Quando dou um grande fora, lembro do desastre do ônibus espacial Challenger. Quando a noite começa promissora, mas se torna melancólica de repente, a Copa de 82 vem à cabeça. Quando vejo Sarney rindo da nossa cara na presidência do Senado, lembro de Sarney na presidência da República.
Collor, Renan Calheiros e Sarney são alguns dos lugares comuns do Brasil, as situações-bumerangues. Um golpe para o orgulho pessoal.