6 Julho, 2009

Como falar de eventos literários que não presenciamos

Vamos tomar o exemplo da FLIP. Com a cobertura online dos jornais e de blogs independentes ficou muito fácil reportar o que não se viu. Dê uma lida rápida no material e faça textos com as seguintes instruções:

1 – Discorde de uma unanimidade

A platéia se encantou com o tal Lobo Antunes, mas esse escritor franco-ameríndio não me seduziu. Vocês me conhecem, não me deixo levar por consensos. Por trás de frases de efeito como “muitas vezes aquilo que os críticos chamam de qualidade são defeitos disfarçados” ou “viver é melhor que sonhar”, senti um vazio, algo deslocado. Não foi dessa vez, Lobo.

2 – Concorde fortemente com uma unanimidade

E o Chico Buarque, hein? Sem palavras, o cara é demais, todo mundo sabe. Igualmente aos outros fãs, eu só achei ruim que ele tenha se baseado demais no álbum lançado este ano, Leite Derramado, e ignorado canções clássicas de Meus Caros Amigos (1976) e Circuladô (1968). Mas tudo bem, Chico é Chico.

3 – Dê detalhes pessoais ao estilo jornalismo gonzo

A sala da imprensa está entupida, um colega aqui quase derruba o copo em cima de mim. A noite anterior foi bem animada, digo a vocês. Conheci uma morena. Sua beleza era mediana, mas com uma caninha que só acho em Parati, ela foi ficando excepcional. Além do mais, quanto mais ela bebia comigo, mas eu ficava parecido com o Chico Buarque. Quando peguei emprestado um violão, impossível de afinar, e cantei o Samba do Leite Derramado, ela não resistiu.

4 – Invente um furo de reportagem

Estava saindo tarde da pousada da morena, ruas vazias, eis que topo com Richard Dawkins. Ele achou que eu era um assaltante, exclamou “God, help me, please”. Ao perceber o erro, ele me foi explicando como o pavor é uma emoção primária na evolução dos mamíferos.

5 – Faça um fechamento genérico

Literatura não pode ser confundida com marketing. A verdadeira literatura não se põe em sacolas com se estivéssemos num shopping. Mas é ótimo ver os escritores saírem de suas torres de marfim. A literatura pertence às pessoas, que bebem cana sim, que depois se arrependem de um caso de uma noite só, como aquela morena me disse ter ficado arrependida. Viva a FLIP! Valeu pela audiência, volto ano que vem. Fui.

30 Junho, 2009

A náusea existencial

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Montagem de Eric Yahnker (via Design Your Trust)

30 Junho, 2009

Quadrinhos highbrow

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Campanha da JWT Italia, “Comics are art”, via The Inspiration Room.

30 Junho, 2009

Dois trechos de “Submundo”, de Don DeLillo

“No infinito estuário onde paranóia e controle desaguavam e misturavam-se, o dossiê era um recurso essencial. Edgar tinha muitos inimigos figadais, e para lidar com essa gente a solução era compilar dossiês volumosos. Fotografias, relatórios de investigações, alegações detalhadas, nomes associados, transcrições de fitas escutas telefônicas, microfones ocultos, arrombamentos. O dossiê era uma forma mais profunda de verdade, que transcendia os fatos e a realidade. Bastava acrescentar um item ao arquivo, uma fotografia sem nitidez, um boato sem fundamento, para que ele adquirisse uma espécie promíscua de verdade. Era uma verdade sem autoridade, e portanto incontestável. Os factóides transbordavam do arquivo e se espalhavam para além do horizonte, consumindo corpos e mentes. O arquivo era tudo, a vida não era nada. E essa era a essência da vingança de Edgar. Ele reorganizava as vidas de seus inimigos, suas conversas, seus relacionamentos, até mesmo suas lembranças, de tal modo que essas pessoas passavam a ser responsáveis pelos detalhes que ele havia criado.”

“O sol já estava quase se pondo, e resolveram acampar por ali. Havia algo de irresistível no prédio, é claro, mesmo arruinado como estava, fechado em si, secreto. Ele destacava-se na paisagem, isolado, com a serra ao fundo, e tinha o lirismo penso de um objeto fora de seu lugar, como um cinema drive-in no meio da pradaria abandonado havia anos, os cabos de áudio espalhados pelo capim, a tela imensa e vazia encarando um milharal. É o tipo de ruína que adensa a paisagem, torna-a mais melancólica e solitária e dá um vago toque triste e subjetivo à sua reação menos dor que consciência da estética do tempo, de como um pedaço de concreto pode se tornar estranho, silencioso e belo, habitado por pouco tempo e depois abandonado, a alma do deserto assinada por homens e mulheres que por ali passaram.”

[trad. de Paulo Henriques Britto]

28 Junho, 2009

Procrastinação bônus

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(Não tenho a versão oficial em português, assim fiz uma direto nos balões. Versão original.)

28 Junho, 2009

Desbaratando a rede de procrastinação

É uma palavra que conheci tardiamente. Até esse ponto, protelar, adiar, enrolar não pareciam ter qualquer força, mas procrastinar ressoou como uma descoberta-chave. Pior do que voltar do médico sem uma cura bem definida é nem ter ao menos o diagnóstico. Antes de tudo, precisa-se de uma palavra definidora. Sempre que é citada, procrastinação ilumina os que compulsivamente atrasam as suas tarefas. Tarefas às vezes definidas por eles mesmos.

O Houaiss indica a origem do latim, procrastinatìo, que tem significado direto: deixar para o dia seguinte. Essa filiação nos dá um sentido histórico e também sugere uma fase que pode ser denominada de procrastinação clássica. Construir um império e erguer aquedutos e abrir todas as estradas que levam a Roma, tudo isso cansa em certo momento. Podemos imaginar procrastinadores em túnicas, sentados nas escadarias de mármore. E que seja lançada aqui uma hipótese historiográfica: a Pax Romana não foi nada além de uma longa e continental procrastinação.

Para entender a sua natureza, deve-se dizer que o procrastinador é arrogante o suficiente para desafiar o deus Cronos. O reles mortal tenta moldar prazos, criar um longo período de tempo livre e um outro, final e curtíssimo, em que qualquer tarefa é cumprida por milagre. Contudo, Baudelaire acertou ao escrever que o tempo é o jogador que, sem trapacear, ganha sempre. O tempo é a banca do cassino. Na mentalidade do procrastinador sempre “é preciso esperar mais pouco”, como se uma revelação genial estivesse para chegar e fosse virar a mesa. Não virá, ou sendo mais preciso, idéias melhores podem vir, mas elas não redimir os minutos mal gastos. Implementar melhores idéias também demora.

O pior lado da procrastinação é que as horas não-produtivas são manchadas pela culpa e ansiedade. Não é um período em que se pode relaxar ou se divertir de fato, afinal um jogo impossível de ser ganho está correndo. Mas é necessário olhar de frente para esses subterrâneos, para esses labirintos onde nada é feito, pois entendendo a procrastinação, pode-se imaginar a vida sem ela. Algum dia, caminhar ao sol com o passo tranquilo de quem fez as suas tarefas com folga. Mais confiante, mais sexy, ouvir um “deixa eu lhe dar um abraço gostoso, seu cumpridor de prazos”. Não vendo mais nada de mortal nos deadlines, o ex-procrastinador lembra-se do crepúsculo romano.

25 Junho, 2009

Os novos best-sellers infantis

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milescovadas

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—–
Atualização: acabaram de me indicar que existe a capa em inglês The Claus Delusion.

24 Junho, 2009

Tiananmen 2.0

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[Sorria! Você está no YouTube!]

Do cartunista iraniano Nikahang Kowsar, via Design Your Trust.

23 Junho, 2009

Eu gosto desta NY



, upload feito originalmente por Soviet.



, upload feito originalmente por Soviet.

23 Junho, 2009

Grandes perguntas literárias e teatrais

- Da peça Helena, de Eurípedes:

“O que dizes? Que sofremos em vão, por uma nuvem?”

[A partir da tradução para o inglês de E. P. Coleridge]

Eurípedes dramatizou uma variante curiosa: devido a uma maquinação de Hera, uma má perdedora, Helena teria sido enviada para o Egito. Quem trai o marido e escapa para Tróia seria um simulacro de Helena, um fantasma que desaparece no ar assim que os gregos vencem a guerra. Mais adiante na peça, é dito: “Oh, Príamo e Reino de Tróia, por nada vocês foram destruídos!”

É uma boa questão, que devemos nos fazer a cada fim de tarde.

- De O Mercador de Veneza, de Shakespeare:

“Se nos espetam, não sangramos? Se nos fazem cócegas, não rimos? Se nos envenenam, não morremos?”

[Tradução apoética]

Pela caracterização do mercador judeu Shylock, muitos já consideraram esta peça preconceituosa, mas o destaque do texto é um belo discurso desse mesmo personagem – acima está só uma parte – sobre como as pessoas se assemelham, seja pela fragilidade ou impulso de vingança. (Aliás, Shakespeare é obviamente o mestre-supremo das indagações.)

- De Álvaro de Campos:

“Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?”

[Poema completo]

Ótima pergunta, meu caro. E não é prato que se come frio, mas lho trouxeram frio. Não faço idéia da resposta. Talvez essa coisa de heterônimos para cá e para lá, não sei, algumas mulheres podem achar isso estranho.

- Da novela A Metamorfose, de Kafka:

“Por que Gregor estava condenado a servir numa firma em que à mínima omissão se levantava logo a máxima suspeita?”

[Trad. Modesto Carone]

Desde a primeira frase do texto, sabemos que Gregor acordou e se viu transformado em um monstruoso inseto. A preocupação inicial dele, de qualquer forma, é com o atraso no serviço. A questão citada é um exemplo do pouco apreciado humor do autor tcheco, sendo que a resposta poderia ser que Gregor trabalha justamente ali por ser um personagem de Kafka.

- De Manuel Bandeira:

“- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?”

[Poema completo]

Já conhecemos de cor a resposta, mas ao reler o poema, ressurge o suspense, um traço de esperança. Confiamos na evolução do equipamento médico, na manufatura de pílulas com psicoativos. Qualquer coisa que nos desvie do tango argentino.

23 Junho, 2009

Cara a cara com o homem que vendeu o mundo

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Aconteceu mais de uma vez isso de passar no comércio e ver alguém parecido com Ahmadinejad. Não se deve julgar os outros pela aparência, mas ficarei de olho desta vez, o elemento estava próximo da loja abaixo, sério, um lugar que vende fogos de artifício e corta cabelos. Suspeitíssimo.

fogos

fogos2

I thought you died alone… A long, long time ago… Oh, no… Not me… I never lost control… You’re face