7 Setembro, 2009

Um retorno

Do romance O Estaleiro, de Juan Onetti, [trad. Luis Gil]

“São muitos os que asseguram tê-lo visto naquele meio-dia do fim do outono. Alguns insistem em sua atitude de ressuscitado, nos modos com os quais, exageradamente, quase de maneira caricatural, tentou reproduzir a preguiça, a ironia, o atenuado desdém das posturas e das expressões de cinco anos antes; relembram seu afã para ser descoberto e identificado, o par de dedos ansioso, pronto para subir até a aba do chapéu diante de qualquer sintoma de cumprimento, de qualquer olho que insinuasse a surpresa do reencontro. Outros, ao contrário, continuam vendo-o apático e insolente, acotovelado na mesa, o cigarro na boca, paralelo à umidade da avenida Artigas, olhando as caras que entravam, sem outro propósito que a contabilidade sentimental de lealdades e desvios; registrando umas e outras com o mesmo fácil, breve sorriso, com as contrações involuntárias da boca.”

A mágica desse trecho está na mistura da incerteza  — “alguns insistem”; “outros, ao contrário”… — com detalhes microscópicos — “contrações involuntárias da boca”.  Também é ótima a “contabilidade mental de lealdades e desvios”.

5 Setembro, 2009

Metáfora bônus

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Melhor e mais aqui.

5 Setembro, 2009

Now is the winter of our discontent made glorious summer by this son of York

“Hoje em dia, me parece que as metáforas não têm mais a mesma força…”

Da peça  Strip Tease, de Marco Catalão.

Esse trecho hora e outra retorna à minha mente. De pronto, podemos dizer que o mundo hoje é mais literal do que antes. É só pensar nos reality shows, na “literatura-verdade”, na música que os carros tocam no último volume, etc. Mas o problema não é só esse. Mesmo no circuito-metafórico padrão, ou seja, filmes independentes, na literatura de respeito ou naquela de vanguarda, nos saraus literários, nas palestras políticas na universidade, nas letras da MPB, enfim, em cada setor desses há uma crise de figura de linguagem.

Precisa-se de metáforas criativas, irônicas, até mesmo iluminadoras…. senão teremos apenas… um mundo.

9 Agosto, 2009

Comédia pela repetição – the old clown

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John Updike descrevendo uma cena matinal:

“O sol, velho palhaço, invade o quarto.”

[Trecho de Coelho Corre, trad. Paulo Henriques Britto]

9 Agosto, 2009

A Wikipédia dos lugares comuns

Via xkcd, descobri este TV Tropes , um catálogo de clichês, arquétipos, recorrências, lugares comuns, repetições, cacoetes, déjà-vus, manias e situações-bumerangues que sempre voltam nas narrativas outra vez. Parece-me que o projeto começou abordando seriados de TV, e foi expandindo para filmes, quadrinhos, livros, games. Uma percepção acertada dos participantes é que é  virtualmente impossível fazer uma narrativa sem tropos, e que muitas vezes a tentativa de fugir de um lugar comum serve para reforçar outro. Pensando em um exemplo: se o final feliz ainda é uma recorrência em novelas e comédias-românticas, o final infeliz é o lugar comum da literatura séria. Neste campo, um final feliz cria mais indignação do que pedofilia – alguma hora aparecerá o Nabokov do final feliz.

Não existe ausência total de tropos, mas lugares comuns que são aceitos ou não segundo cada época, publico e gênero. Da categoria dos tropos desacreditados pelo o público atual, alguns dos exemplos do TV Trope são:

- Foi tudo um sonho
- Amnésia fácil
- Está tudo calmo demais

(O melhor do site são os nomes para os tropos. Quando a narrativa quer passar uma moral, mas os elementos da história  a contradizem involuntariamente, temos a categoria do Esopo Quebrado. Um exemplo vem das narrativas de ação voltadas para o resgate de uma pessoa, reforçando a idéia de que uma vida só já é sagrada. Porém, até chegarem ao resgate, explosões, perseguições e tiroteios colocam um grande número de inocentes em risco, inclusive civis que só estavam passando com o carro na área. Chamaram essa subcategoria de Um Milhão é uma Estatística. Não percam também a descrição do tropo Nietzsche Wannabe)

Para o meu caso, há muitos tropos que se tornaram insuportáveis, aqui vão apenas três:

- O Retorno do usuário. O traficante nega vender para um usuário específico e mais tarde esse usuário contrariado será chave na Queda do império de drogas.

- Super-herói contestado. No começo, as suas ações são recebidas com aplauso pela cidade. Trinta minutos de filme depois, manchetes de jornais estampam indignação e revolta com o vigilante. Os filmes do Super-homem nos anos 70 já tinham isso.

- Brigando pela custódia dos filhos. Em qualquer gênero de filme, em qualquer tipo de história, cria-se legitimidade para o personagem mostrando-o em audiências judiciais disputando o direito de ver os filhos mais vezes. Isso chegou ao cúmulo em O Gângster, de Ridley Scott, cujo roteiro parte de uma história real. Acho que desvios da realidade são totalmente permitidos, mas não precisavam chegar ao ponto de colocar Russel Crowe nessas cenas frente ao juiz, sendo que o policial real da história, Richie Roberts, nem tinha filhos.

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Comédia-romântica é o gênero que tem menos pudor no uso de lugares comuns. O chato é que algumas delas até começam com situações promissoras e boas piadas (afinal há ótimos roteiristas de humor nos EUA), apenas para irem se arruinando depois de quarenta e cinco minutos – os lugares comuns crescendo exponencialmente até a história terminar. Esses tropos irritam não só por mostrar que você pagou por uma mercadoria repetida, mas por lembrar a onipotência dos clichês na vida real. Clichês da vida e dos filmes são diferentes, mas eles têm esse mesmo poder gravitacional – não importa onde você começa, as suas intenções de partida, a vida vai lhe direcionando para eles. Por vezes, um casal se propõe a ser a vanguarda do relacionamento e saltitar sobre os problemas em que as “pessoas comuns” afundam o pé, isso só para dois meses depois estarem repetindo jargões e expressões cansadas, usando tropos que imaginavam inaceitáveis nos dias de hoje. Os cacoetes da comédia-romântica são um grande golpe no orgulho pessoal.

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Como já deu para notar por esse blog, passei parte importante da infância e adolescência na década de 80. Quando dou um grande fora, lembro do desastre do ônibus espacial Challenger. Quando a noite começa promissora, mas se torna melancólica de repente, a Copa de 82 vem à cabeça. Quando vejo Sarney rindo da nossa cara na presidência do Senado, lembro de Sarney na presidência da República.

Collor, Renan Calheiros e Sarney são alguns dos lugares comuns do Brasil, as situações-bumerangues. Um golpe para o orgulho pessoal.

30 Julho, 2009

Polaróides de julho, que agoniza

[As frases marcadas (*) vêm de Crack-up de F.S. Fitzgerald, uma seleção de notas, fragmentos e correspondência editada por E. Wilson, trad. de Rosara Eichenberg]

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“Agora é tudo tão inútil quanto repetir um sonho.”(*)

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“O vento percorria as paredes em busca de poeira antiga.”(*)

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“Uma garota para quem tudo era terrivelmente superestimado.”(*)

“Olhando pela última vez nos olhos dela, cheios de segredos tranquilos.”(*)

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“Emergindo de sonhos, do quarto escuro, temos a cada manhã um momento de Lázaro.”

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“Se Sarney fosse o Messias, ele só ressucitava parente.”

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“Capaz de grosseria imaginativa.”(*)

“Nada mais é permitido na ficção, como a convenção de manter as pessoas no palco por coincidência.”(*)

Devido a compromissos profissionais, as postagens passaram a rarear aqui no blog. Há um lado positivo (um no mínimo): posso achar que o que me impede de fazer ótimos posts é só a falta de tempo: “Ah, se ao menos me deixassem escrever, que postagens seriam… Postagens mitológicas, memoráveis. Se apenas me deixassem…”.

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[Esse efeito de polaróide é conseguido com o programa Poladroid. Fiz a montagem do Lula com o bigode do Sarney a partir da montagem do presidente sem barba por Mario Amaya.  Não encontrei os créditos para as demais fotos. Esse Ex libris eu ganhei de presente há bastante tempo, acho que vem da Alemanha. O desenho acima, As Aventuras de Pinóquio, comprometeu uma geração inteira.]

30 Julho, 2009

Em algum metrô ou ônibus para a universidade

20 Julho, 2009

14 Bis: um vôo encenado? (The 14-bis hoax)

No começo do século XX, a corrida pelo domínio dos céus se acelerava. Os países europeus, temerosos com a ascensão comercial e tecnológica dos Estados Unidos, tinham muito em jogo. Então, em 1906, em Paris, um brasileiro realiza o primeiro vôo com decolagem autônoma. Ou pelo menos assim conta a versão oficial da história.

“Qualquer pessoa sã que olhasse para o 14 Bis perceberia que aquela geringonça nunca levantaria vôo”. Essa declaração bombástica de Euclides da Cunha, escritor e repórter do jornal O Estado de São Paulo, foi uma das poucas vozes discordantes à época e, por isso, rendeu acusações de antipatriotismo. Porém, documentos descobertos recentemente mostram que o autor de Os Sertões estava no caminho certo até ser assassinado em 1909.

14bishoax

A evidência mais clara é uma foto (acima) que havia permanecido inédita por pouco mais de um século. Na imagem, é possível ver o 14 Bis sendo sustentado do chão. Sabe-se hoje também que Santos Dumont manteve correspondência frequente com o diretor francês Georges Méliès, que em 1902 havia lançado Uma Viagem à Lua (abaixo). A família do suposto aviador está bloqueando o acesso ao conteúdo das cartas, mas não nega mais a sua existência.

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A polêmica sobre o vôo do 14 Bis é mais um golpe no orgulho dos brasileiros. Há dois anos, descobriu-se que Tom Jobim não cantou de fato com Frank Sinatra, mas com um sósia. E há menos de uma semana, a CPI da Petrobras chocou o país ao revelar que a empresa nunca chegou a explorar petróleo em águas profundas. A estatal usava imagens gravadas em plataformas marítimas na Noruega para os seus comerciais. O blog da Petrobras até agora não forneceu explicações, mas também não negou as denúncias.

17 Julho, 2009

[conto] O café da manhã

17 Julho, 2009

[crônica] Um cinéfilo radical vai à OSESP

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Essa crônica acabou ficando grande. (Talvez seja proibido pelo sindicato dos cronistas). Melhor em pdf:

CinefiloOSESP.pdf

A citada cena de O Homem que Sabia Demais está no youtube.

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6 Julho, 2009

Como falar de eventos literários que não presenciamos

Vamos tomar o exemplo da FLIP. Com a cobertura online dos jornais e de blogs independentes ficou muito fácil reportar o que não se viu. Dê uma lida rápida no material e faça textos com as seguintes instruções:

1 – Discorde de uma unanimidade

A platéia se encantou com o tal Lobo Antunes, mas esse escritor franco-ameríndio não me seduziu. Vocês me conhecem, não me deixo levar por consensos. Por trás de frases de efeito como “muitas vezes aquilo que os críticos chamam de qualidade são defeitos disfarçados” ou “viver é melhor que sonhar”, senti um vazio, algo deslocado. Não foi dessa vez, Lobo.

2 – Concorde fortemente com uma unanimidade

E o Chico Buarque, hein? Sem palavras, o cara é demais, todo mundo sabe. Igualmente aos outros fãs, eu só achei ruim que ele tenha se baseado demais no álbum lançado este ano, Leite Derramado, e ignorado canções clássicas de Meus Caros Amigos (1976) e Circuladô (1968). Mas tudo bem, Chico é Chico.

3 – Dê detalhes pessoais ao estilo jornalismo gonzo

A sala da imprensa está entupida, um colega aqui quase derruba o copo em cima de mim. A noite anterior foi bem animada, digo a vocês. Conheci uma morena. Sua beleza era mediana, mas com uma caninha que só acho em Parati, ela foi ficando excepcional. Além do mais, quanto mais ela bebia comigo, mas eu ficava parecido com o Chico Buarque. Quando peguei emprestado um violão, impossível de afinar, e cantei o Samba do Leite Derramado, ela não resistiu.

4 – Invente um furo de reportagem

Estava saindo tarde da pousada da morena, ruas vazias, eis que topo com Richard Dawkins. Ele achou que eu era um assaltante, exclamou “God, help me, please”. Ao perceber o erro, ele me foi explicando como o pavor é uma emoção primária na evolução dos mamíferos.

5 – Faça um fechamento genérico

Literatura não pode ser confundida com marketing. A verdadeira literatura não se põe em sacolas com se estivéssemos num shopping. Mas é ótimo ver os escritores saírem de suas torres de marfim. A literatura pertence às pessoas, que bebem cana sim, que depois se arrependem de um caso de uma noite só, como aquela morena me disse ter ficado arrependida. Viva a FLIP! Valeu pela audiência, volto ano que vem. Fui.